quatro anos por aqui a semear o pasto, uns com mais sementeira do que outros, ainda assim semeando. durante este tempo nasceram 5 livros individuais e a participação num colectivo, visitei dezenas de escolas um pouco por todo o país e na ilha onde vivo. o ano que se aproxima terá um início repleto de novos projectos; um curso de escrita criativa da minha autoria, um projecto de escrita numa instituição que orienta jovens carenciados e um novo livro em prosa, isto para além de diversas actividades que pretendo levar a cabo durante o ano; tenha eu arte engenho e perseverança para tal. a todos quantos me têm apoiado e incentivado quero manifestar-lhes a minha profunda gratidão e carinho.
usufruto dos meus olhos. porosidade da minha mente. ritual das circunstâncias. és tu sol alaranjado quando te deitas e beijas as sombras nas arcadas dos meus lábios.
nem todos os destinos são humanos, e muitos estão para além das ameias do que pressentimos. nem sempre os mastros se vestem de lonas. nem todas as amarras são uma prisão, a maior parte do tempo são elas que nos suportam rumo às conquistas. e sim, todos os destinos são possíveis, como se; se tratasse de algo que sempre nos pertenceu. que se levantem pois as âncoras - que o destino está-nos no sangue.
Tendo em conta a época Natalícia que se avizinha, as Caves Castelar com sede em Anadia, decidiram colocar no mercado, um Pack constituído por duas garrafas de vinho tinto Pedaços de Vida e Fantasia, colheita do ano 2000, e um exemplar do livro cujo título deu origem à marca do vinho, e cuja imagem de capa foi adoptada para o rótulo da garrafa. O referido Pack está limitado a 200 exemplares.
Para efectuar encomendas visite o site www.vinicolacastelar.com/, onde estão disponíveis os diversos contactos e, aproveite a oportunidade para conhecer os produtos de excelente qualidade, das Caves Castelar.
De acordo com o prometido, dou a conhecer o rosto do livro "70 poemas por um sorriso. A capa tem por base uma pintura a óleo sobre tela, da minha estimada amiga Helena Paz. De salientar que a pintura foi criada pela artista propositadamente para a capa deste livro.
Fixem este título. São setenta poemas, com a firme vontade de proporcionar um sorriso, a todos quantos uma causa nobre abriga e acarinha, neste caso a APPACDM de Setúbal. Lá mais para diante darei a conhecer o rosto deste trabalho.
anti-isto, anti-aquilo, anti-tudo e anti-nada. o rosário escabroso das classes socioprofissionais-político-sociais de banda-larga. alternativa mesmo alternativa nunca houve, o que há é a alternância do costume. e como de alternância se alimenta a clientela. já estão agendadas as paralisações. o que me irrita é que a factura depois é a dividir por todos. e com a franqueza que devo a mim próprio - já me mete nojo!
preciso de voltar a essas casas pedras e telhados das minhas origens.
avó Maria, quero de novo os vinte escudos embrulhados num sorriso na palma da tua mão no alpendre da tua casa aos domingos à tarde.
que saudade da lisura da tua bondade poema vivo da minha juventude o pão fumegante saído do forno recheado de petingas temperadas de azeite que as tuas mãos calejadas me ofereciam.
outrora crescia-me a água na boca feliz hoje as memórias humedecem-me o olhar.
aqueles degraus rasos de pedra onde saboreava o delicioso manjar são agora o tempo a latir o silêncio as intempéries levaram o teu rosto a nitidez da perda é a matriz do meu longe.
dedico-te estas palavras com mãos quentes calejadas dedico-tas por não m’as teres pedido germinaram dos meus olhos sem teias são sinceras, rainhas e plebeias
são a travessia branca da minha alma a metamorfose de mim na palavra toda um voo oblíquo de matéria ardente um silêncio habitável por toda a gente respira este lugar calmo transparente na invulnerável superfície da página vive medita e lê como quem sente
gosto de me pôr à janela desta ilha que habito a olhar o grande oceano em azul majestoso a minha dimensão é do tamanho do que sinto sou tantas vezes livre quantas vezes me liberto só eu sei o que o meu pobre corpo vibra quando a alma dele se evade e poisa nos canteiros há flores de todas as cores perfumes sem dores uma ilha nunca será pequena como a dizem pois a partir dela se pode ver a dimensão do mundo
por aqui sei que posso venerar o crepúsculo combater o tédio compreender sem destruir sinto que destruir é esquecer de amar esta ilha ensinou-me a amar desde que me acolheu alimentou-me dos seus seios esplendorosos resgatou-me ao cansaço ofereceu-me o seu generoso regaço toda esta ilha é um majestoso corpo de mulher onde se adivinha o amor estendido nos braços dos homens abençoado pela mão despida do oceano
imagino Gonçalves Zarco a desembarcar para além das naus traria certamente o sol nos lábios nos olhos o êxtase que o belo ao homem sugere no rosto o espanto pela sensualidade do verde e azul estremecendo de prazer no rasgar do véu feito de bruma entre mar e céu festejos de pupilas dilatadas no calor da terra visão inesquecível e comovente para pintores e poetas tocantes sinfonias de vida e alegria nascem nesta pauta feita ilha a mão do homem que tudo muda mas a essência e o amor permanecem
perdoem-me o atrevimento de querer contar cantar e encantar uma ilha um arquipélago perdoem-me porque por amor se cometem loucuras é indelével esta minha paixão pelos recantos e encantos e tento por palavras esculpir o que sinto às vezes deliciado outras incrédulo num sonho de escrever
tudo o que eu possa escrever não passará de um rascunho ainda que sentido e fiel ao amor por tanta e indizível beleza tanta História e labor trespassa a minha pobre mente um efeito prolongado e decisivo sobre tudo o que há para fazer viver sentir e preservar a dar forma ao que somos e às nossas vidas
só os mais distraídos não darão conta do sangue dos nossos antepassados a correr dentro de nós misturado com o nosso a irrigar cada ser único e irrepetível a tudo isto se junta o que é grande e magnífico como o oceano um véu azul e transparente onde se vê a alegria até à raiz mais nobre e profunda dos rochedos vigilantes
erguem-se imponentes e majestosos os picos beijando intencionalmente as nuvens fermentando as brumas bem-aventurado arquipélago bafejado pela harmoniosa anarquia de paisagens tão diversas e antagónicas na profusão de cores rochedos cascatas ribeiros levadas abruptos desfiladeiros manta de cores nas copas dos arvoredos terra húmida e fértil flores de cores intensas e aromas densos a despertar tórridas paixões
tão tórridas quanto a aridez selvagem das Desertas por toda a parte sons misteriosos da azáfama da Natureza o canto das aves a graciosidade escultural do lobo-marinho perante tão intensas sensações a mente rejubila de contentamento e o corpo pede repouso no dourado e quente areal de Vila Baleira
um e outro a ilusão de cada um de nós, na bruma perturbada pelos gnomos do silêncio. indescritível dor de gozar a calma do exílio, na tela húmida de um tédio irreal e vago.
respiramos o ar intensamente neutro e mole, como o cerimonial da cauda de um gato dormindo ao sol. assim nos imaginamos felizes rindo, num tocar de pés nus a plausível necessidade dos vivos.
um lábio toca outro lábio habitando juntos, a mesma boca o mesmo rosto a mesma inércia alada. um cansaço é a sombra de outro cansaço, uma súplica uma exigência ao direito de não fazer nada.
somos tão trágicos quanto a tragédia que somos capazes de conceber, bebemos em silêncio um chá de tédio. logo hoje, precisamente hoje, acabaram-se as saquetas do teu adorado chá de menta. – vivemos sós!, sempre que os meninos estão a dormir, não é lucy? fazemos uso deste tédio antigo por incapacidade de o renovarmos, ou partirmos à descoberta de um novo. concordamos na estagnação porque tudo acontece na mesma. a filha dos nossos vizinhos acabou o curso superior, e nós nem precisámos de nos mexer. aconteceu. que silêncio tão grave, a ferir-me os tímpanos só o eco dos teus pensamentos; na próxima semana tens de ir ao salão da bety e talvez faças umas nuances. serão ténues e discretas como um remédio inútil. – notas alguma diferença em mim? – o que foi que te aconteceu lucy? o teu olhar ficou sombrio e contraíste as maçãs do rosto, notei algum esgar de ódio nos teus olhos; repetiste – notas alguma diferença em mim? – lucy passa-se alguma coisa de grave contigo? – começo a ficar preocupado; – diz-me lucy? – és mesmo estúpido, não vês que fui à bety? ia responder-te mas só encontrei a porta a bater-me no nariz. eu nem sequer conheço a bety. disse a mim mesmo. conheço é o cajó, o tipo que me apara o cabelo e me põe a par das merdas que se passam no futebol, e nos intervalos me fala das gajas boas que estão nas capas das revistas, que me dá a ler enquanto espero pela minha vez, depois pago a conta e saio, só volto daí a dois meses. sem nuances. já me basta a falta de cabelo que se agrava a cada dia. – lucy, diz-me; – alguma vez te perguntei se notavas alguma diferença em mim? não, porque sei que odeias o meu pentear, tanto quanto odeias as cores que escolho nas cuecas que uso. nunca me perdoaste o não te deixar escolher-me as cuecas. ao longo destes anos todos sempre que te contrario em alguma coisa, há mais uma coisa que passas a odiar em mim. não suportas quando leio e ouço música clássica. sou um parvo com mania de erudito, assim me baptizas enquanto me vomitas mentalmente, sentada no sofá a folhear a elle, com o canal fashion ligado. é neste sono de dizer que anulamos a febre de ser, mastigando azedas que colhemos no vaso onde deitamos sementes e germina a tolerância anémica. é lucy, assim nos vamos suicidando aos bocadinhos; porque, supostamente para nós, nós são os outros, se não são, deviam pensar e sentir como nós, sendo nós. ouvi-te pensar que este fim-de-semana levamos os meninos a casa dos teus pais. sim lucy eu ouço-te pensar. e levamos porque a semana passada levámos os meninos a casa dos meus. é nesta democracia paliativa que suportamos as nossas vidas e nos suportarmos. é a realidade de cada um de nós que nos impede de existir. tu não suportas os meus pais e eu não suporto os teus. os teus não me suportam e os meus não te suportam. espera lucy, estou a ser impreciso; o meu pai gosta muito da mãe dos seus netos, e acho que tu também gostas dele. agora sim, agora é que está bem, foi reposta a verdade inócua. lucy agora experimenta ver se consegues ouvir o meu pensamento; é a ironia que nos impõe tarefas, e, no privilégio que nos é concedido por uma horrorosa reciprocidade. – sim lucy!, este fim-de-semana levaremos os meninos a casa dos teus pais. de outro modo colocaríamos em causa a monotonia das nossas vidas inconsistentes. e o tédio é o nosso sentimento mais bem definido. porque nos faz sentir culpados e a culpa nos faz sentir pena de nós. habitamos uma espécie de depressão, cujos ganhos secundários nos são preciosos. uma atmosfera de gozo trágico na excitação que o sofrimento nos proporciona.
Nesta vida povoada de escolhos, a sorte, é na maior parte do tempo, uma criada aleijadinha que nos serve o chá, saltitando ao jeito do infortúnio. O carácter um criado maltratado e ignorado, a que não se dá o devido valor. A honestidade um empecilho à vaidade. Caminha-se na rua rodeado de tudo sem nada ver, tal é a cegueira da fama e ambição. A verdade é um incómodo. Há algo que não me canso de repetir até para mim mesmo; os sonhos são de construir, os sonhos são de construir. Ser crente em algo, é expor a dúvida, assumir a imperfeição, a necessidade de valorar a existência. Nenhuma fé vale mais do que outra, nenhum tipo de fé deve ser imposto a outrem, se isso acontecer deixa de ser fé, assumindo o rosto de fanatismo. Não acreditar em nada é habitar o vazio. A liberdade não é um direito, é um dever. Sábio é aquele que conhece e estima o valor dos valores. São raros os que conseguem viver a plenitude da vida, os que o conseguem entregam-se-lhe de corpo e alma, por lhe terem um amor inteiro. Mais vale uma pausa serena do que agir inutilmente. Por muito que se porfie, o acaso não vende a sorte. Nem a verdade é um lago onde se banhem os ignóbeis a seu bel-prazer. Uma virtude não é, nem pode ser, um lapso, um eco vago, tão-pouco uma subjectividade. E, se alma de um ser humano se pudesse libertar dele, revelaria por certo toda a verdade, que a mentira do corpo aprisiona. Quem dera que num qualquer Abril ou até Dezembro, numa revolta despida de intolerância, as almas se libertassem dos homens. Expondo as vergonhas, para que os homens sintam nas dentaduras, todas as dores que lhes causam. E quanto mais medito em tudo isto, maior é o desconsolo que me invade. O cansaço das caras do costume. A pobre substância dos factos, o bolor dos actos vestidos de hábitos antigos, repetidamente repetidos. E quanto mais abro os olhos, o que mais me é dado a ver são antolhos. Um enredo orgânico de fingimento agoniante. Há no entanto, ar, terra e mar, há o amor, onde a minha consciência me dita o dever de repousar.
não tarda sai-me a primavera pela janela e entra-me o verão pela porta. as vizinhas já andam a pendurar biquínis e tanguinhas no estendal; a coisa promete. claro que com a subida da temperatura há mais poeiras no ar, que, não se fazem rogadas e me entram em casa por todos o lados, janelas portas frestas e frinchas, não há vidro duplo, caixa de ar ou calafetagens que resistam. sou por natureza um tipo meio distraído e, quando vou a dar conta, tenho cá em casa; o sócrates, a ferreira leite, o vital, o rangel, o louçã, o portas um e o portas dois, o melo, o jerónimo e a ilda e mais uns quantos grãos de poeira, que na grande maioria não sei identificar, é cá uma poeirada, um autêntico buraco negro, que me torna os dias absolutamente irrespiráveis. vejam lá bem, que até o aníbal, no passado dia 10 de Junho, me entrou sorrateiramente pela janela logo de manhã, e só saiu quando eu me fui deitar, já era madrugada do dia 11. como era dia da pátria a selecção nacional ofereceu-me um empate, cedido por especial favor, por uma humilde congénere tão a leste, como o empenho dos bravinhos lusos. ai que saudade do mata mata. o tipo não era luso, mas falava a língua de camões e, ganhava jogos. isto para além de dar uns tapa em quem se atrevesse a tocar nos minino. ai que saudade do mata mata, a malta bem que o podia contratar para dar uns tapa, na poeira política, que me entra, que nos entra, casa adentro, e nos toca sobretudo onde nos dói mais. o caló, que é taxista, e percebe muito de futebol e de política, é que diz ter um bom remédio para tratar desses gajos todos, só que, eu como sou um moço bem educado, não me atrevo a reproduzir aqui a receita.
não tarda sai-me a primavera pela janela e entra-me o verão pela porta. as vizinhas já andam a pendurar biquínis e tanguinhas no estendal; a coisa promete.
Mais tarde do que devia, por razões várias que não importa agora escalpelizar. Todos os momentos por mim vividos, no lançamento e apresentações do meu novo livro “Pedaços de Vida e Fantasia”, foram para mim extremamente gratificantes e enriquecedores, aproveito uma vez mais para agradecer a todos os que me apoiaram, acompanharam e participaram em cada um deles. No entanto há três momentos que quero colocar em evidência, pelo facto de nos três haver um denominador comum; jovens. Os que melhor me conhecem sabem do meu empenho em estar perto deles, de os escutar, de conversar com eles, nomeadamente nas escolas que me abrem as portas e convidam para o efeito.
Anadia, 26 de Abril, Biblioteca Municipal de Anadia, sob a coordenação da professora Dulcineia Borges, quatro alunos da Escola Secundária de Anadia, Luís Martins, Marta Silva, Mariana Santos e Fábio Monteiro apresentaram o seu contributo com “Ser Poeta” e “Pedaços de vida e fantasia”, (música e letra de Luís Martins), “Memórias vivas”, “Este modo de vida”, “Lugares de outros tempos” e “Um livro”. Estiveram fantásticos, nada que eu já não estivesse à espera, uma vez que eu já lhes conhecia o talento. Deixo-lhes toda a minha estima, admiração e gratidão.
Até sempre!
Ei-los na foto
Coimbra, 2 de Maio, Fórum da Fnac Coimbra, antes da apresentação do livro, eu tinha um encontro marcado com um escritor de 8 anos de idade. Estou a falar-vos do David Lourenço, um menino que já foi premiado pela Caminho Editora. Era o nosso primeiro encontro, no início o David estava um pouco ansioso, mas com o desenrolar da nossa conversa, foi descontraindo e acabámos por estabelecer um diálogo magnífico e frutuoso para ambos. Quis o David presentear-me com um texto escrito de propósito para me oferecer, ao entregar-me uma capa com o texto manuscrito, disse-me: que o escrevera pelo o seu punho no papel e mo entregara assim, por ser mais pessoal. Passo a transcrever o texto tal e qual o original:
A mãe que eu gostava de ter
Era uma vez um menino chamado Vicente. Esse menino era muito, muito rabugento com a sua mãe, e gostava de ter uma mãe que não o obrigasse a nada. Certo dia ia para a escola, passou na estrada uma carrinha com um senhor a dizer: - Meninos e meninas, querem ter outra mãe? Venham à loja mãe e terão a mãe que quiserem. O Vicente naquele momento pensou: - E que tal dizer à minha mãe verdadeira para se ir embora? E assim fez. O Vicente no dia seguinte disse à sua mãe para se ir embora. De seguida a mãe foi-se embora triste. O Vicente telefonou para a loja mãe, mas as mães eram todas muito caras, e ele não tinha dinheiro que chegasse para comprar uma mãe, no dia seguinte era fim de semana e sentia falta da mãe. Ele decidiu pôr cartazes com o nome da mãe para o caso de ela o ler. O Vicente começou a ficar desesperado, pois não sabia cozinhar. Ele já não sabia o que fazer, e nem um cêntimo tinha. Então foi à procura da mãe. A mãe lá em casa da amiga dizia: - Ele já deve ter aprendido a lição. A mãe voltou e o Vicente ficou muito contente. O Vicente aprendeu uma grande uma grande lição. Nunca dizer mal das pessoas porque nós somos todos precisos!
FIM
David Lourenço 02/05/2009
Amigo David, os meus sinceros parabéns pelo teu texto. Fico-te muito grato pela tua simpatia, faço votos para que continues a ser um menino feliz, na companhia dos teus pais, familiares e amigos. E, que ao longo da tua vida, com trabalho, esforço e dedicação, consigas alcançar os teus objectivos.
Um grande abraço com amizade.
O David e eu na foto em baixo.
Funchal, 9 de Maio, Fórum da Fnac Madeira. A Paula Trigo convidou o seu filho Rui Filipe e o amigo Vítor Hugo, para participarem na apresentação do livro, o Rui, leu vários excertos do livro durante a apresentação e terminou declamando o poema “Ser Poeta” de Florbela Espanca, acompanhado à viola pelo Vítor Hugo, executando uma música que o próprio compôs para o momento. Foram brilhantes! É de realçar que foi pela primeira vez actuaram em público, e eu bem sei o quanto é difícil estar pela primeira vez perante tanta gente a observar-nos e avaliar-nos.
Os meus sinceros parabéns pela vossa brilhante prestação, fico-vos eternamente grato pelo vosso empenho, dedicação e amizade.
Que sejam muito felizes e que o futuro vos sorria tal como merecem.
Um grande abraço de estima e amizade.
Em baixo a gravação onde podem visualizar e ouvir o momento.
Aprendi com Voltaire que; A leitura alarga a alma e um amigo esclarecido dá-lhe consolo.
Agora que as coisas por aqui tendem a retomar alguma normalidade, permitindo-me regressar às tarefas suspensas. Venho expressar o meu profundo agradecimento a todas e a todos, pelo apoio e estima que me dedicam.
Apresentação da obra pelo escritor e poeta José Torres.
Momento musical, pelo músico, poeta e escritor Flávio Lopes da Silva, acompanhado pelo músico Miguel Duarte.
Sessão de Apresentação na Biblioteca Municipal de Anadia
Dia 26 de Abril pelas 16 horas
Apresentação da obra pelos alunos do 11º Ano, da Turma de Literatura Portuguesa, da Escola Secundária de Anadia Preparação e coordenação da Professora Dulcineia Borges
Com o patrocínio da Câmara Municipal de Anadia, Biblioteca Municipal de Anadia, e Vinícola Castelar.
Sessões de Apresentação em Montemor-o-Velho
Dia 27 de Abril pelas 11 horas
Associação Diogo de Azambuja – Escola Profissional de Montemor-o-Velho Estrada Nacional 111
Dia 27 de Abril pelas 14 horas
Associação Diogo de Azambuja – Escola Profissional Agrícola Afonso Duarte Largo da Feira – Montemor-o-Velho
Sessões de Apresentação em Gafanha da Nazaré
Dia 28 de Abril manhã e tarde
Escola Secundária c/3ºCEB da Gafanha da NazaréRua Dr. António Vilão, apartado 82
Sessão de Apresentação em Vilarinho do Bairro
Dia 29 de Abril pelas 14:30
Escola Básica 2º e 3º Ciclos de Vilarinho do Bairro
Sessão de Apresentação em Lisboa, na Livraria Bulhosa Books & Living – Campo de Ourique Rua Tomás da Anunciação, nº 68 B
Dia 1 de Maio pelas 16 horas
Apresentação da obra a por Ana Correia e pelo poeta Vítor Cintra, autor do prefácio ao livro.
Conferindo ao evento maior dimensão cultural, estarão expostas durante a sessão, pinturas de Helena Paz.
Sessão de Apresentação na Fnac Coimbra
Dia 2 de Maio pelas 21:30
Apresentação da obra por Paula Cação e pelo poeta Policarpo Nóbrega.
Um evento a não perder por quem goste de emoções fortes.
Sessão de Apresentação na Fnac Madeira
Dia 9 de Maio pelas 17 horas
Apresentação da obra por Paula Trigo.
Estão garantidos momentos surpreendentes durante a sessão, que não são revelados, para estimular apetites.
O autor agradece encarecidamente a vossa presença.
escolhi-te dia e noite para minha amante, no refúgio sombreado do denso arvoredo. uma cama de tufos, lençóis de brisa silente, sem palavras, silêncios aligeirados de sopro.
no teu dialecto de minúsculas por insectos, minúcias deslumbrantes em ancas de frutos. Deusa visível de fascinante complexidade, paleta de todas as cores refúgio de simplicidade.
e olho o céu, e olho o mar, toalhas em azul de bainhas brancas, tal como o sol no início. todo o olhar é a confirmação, hemisfério norte e sul, íntimo movimento no verso da asa, ave sem vício.
num suspiro me alimento e a alma exalta, na delícia de um beijo nos teus lábios de água. a força permanente do vale à montanha mais alta, uma ode um hino uma fé onde vou lavar a mágoa.
leiam-me com o mesmo vómito de desprezo, com que deitais o olhar furtivo a um mendigo. mas leiam-me, e não me deis palavrinhas de aconchego. vinde antes temperados de azedume, zurzindo impiedosamente o chicote do castigo. mas leiam-me, que desta alma não ouvireis um só queixume.
e se sois vós ainda tão tenros e já sentados, pois leiam-me, e nesse mínimo castigo expiareis vossos pecados.
sou feito de matéria bárbara e firme, nas palavras me abrigo e busco a nudez do simples. então leiam-me, nesta convergência de fluxos e matéria sublime. nocturno amante de insectos espuma e pedra, animal à sombra e à chuva de opacos melindres. então leiam-me, ao som dos latidos enquanto a iliteracia não ferra!
na espessura do tronco da árvore, há pelo menos uma palavra viva em crescendo. no canto melodioso da ave, há pelo menos uma palavra em voo sonoro.
também o teu corpo é palavra, às vezes indizível por habitar a vertigem. na oblíqua exactidão do fogo que lavra, no ardor da ferida exangue em floresta virgem.
germina a palavra diante dos meus olhos, tingindo a negro o canteiro de papel branco. arma diáfana e precisa a combater antolhos, num labor de silêncios e sons a atenuar o pranto.
dedico-te o meu amor na claridade do meu desejo, fundindo o teu e o meu corpo em matéria ardente. em voos do imaginário planando no puro ensejo, na tua cúpula em cópula até ao verso incandescente.
(à palavra todo o respeito é devido, na escrita o seu uso quer-se parcimonioso e sério. mas; também um “produtor” vinhos ousou dizer: que sabia ser possível fazer vinho de uvas, mas desse ele nunca tinha feito)
tem quatro casas o botão, todas elas caseadas, por linhas bem entrançadas. estás a vê-lo diante do teu nariz? há-os de plástico de prata de oiro e latão, também os há de chifres, talhados na vida de um pobre cabrão.
estás a ver aquela linha alaranjada, entre dois retalhos de nuvem? estás nada, a esta hora julgas-te Platão!
pobre diabo, encantado com o seu umbigo, qual filósofo em alegoria da caverna, escondido e só, a curar ignorância.
e agora diz-me lá, por que não aprendes a cerzir a alma? vá anda, reponde-me! por que não me dizes nada? ah! já sei! de esqueleto não passas. e para mal dos teus pecados, a tua inteligência sempre viveu acamada.
tempo breve, lento o tempo, tempo arredio em marcha de caranguejo. tempo esguio mentiroso e fugidio, tempo seco barbatana de raia no estio.
e um tempo a embalar a insónia, à espera que o sono escorra pelos beirais. tempo de cópula dos ponteiros do relógio, no cio dos segundos em orgasmo estéril.
o tempo das cigarras em desgarrada, das corujas em desmesurado pio. faz-me tanta falta, o tempo que medeia entre a proa e a ré do navio.
meço o tempo onda a onda, o tempo breve onde respiro liberto. num tempo vago e de horizonte aberto, densa partitura de instantes mínimos.
e tudo se agita num silêncio, tão breve quanto o meu tempo. o tempo se esfumou sem eu dar conta, e a noite desfez o céu ainda há pouco em presença.
algo se inicia sem nome, na gestação de vocábulos de amor, metáforas de vida letra a letra, tomando forma no venturoso ventre.
o ser de fibras moldadas em fogo brando, abre clareiras de júbilo na carne do mesmo poema. um corpo ávido de vida embalado pelo silêncio, um silêncio liso na harmonia de uma alma alva e nua.
pulsa e respira em tão silenciosa frescura. ah Primavera viva! unida à terra onde o fruto madura, e rompe e rasga a prodigiosa ventura, qual magna lava do vulcão.
e há então um choro primeiro, não de sofrimento ou de mágoa, mas sim um rumor vivo ingénuo e livre, talvez um primeiro pedido – de amor incondicional.
Quis quem já não está entre nós, em conjugação com o supremo, no trono da Real Natureza, que há umas décadas atrás, num dia 21 de Março, precisamente às 09:30 da manhã, eu desse início à empreitada de uma vida. Construída entre sonhos e escolhos, somando primaveras. Agora, dobrando a esquina da rua do começar a somar invernos, não venho mendigar tréguas. Quem me tem mordido que me continue a morder, pois faz-me falta, quem me estima que me continue a estimar, pois falta me faz, e, quem me ama que me continue a amar, pois sem esse amor sou nada. Tenho um improviso de intervalos para todos vós, da carne e da alma vos podeis servir, consoante a natureza das vossas fomes. No entanto quero que saibam, por muito que ferrem num ou noutro lado, nunca chegareis aos ossos que eu não deixo, vou levá-los comigo, quando arrumar os meus pertences. Agora vou simular rimas e poesias, respirar nos versos brancos, escrever prosas de amainar cóleras, contos de florescer memórias, romances de irónico a Cupido. Que a minha morte vem longe, e irei vestido de palavras, quem mo afiançou foi Calíope. Eu, Primavera enquanto dure.
De tanto me doer o pensamento acordei com o estrondo dos olhos a caírem dentro de mim. Foi quando o par de óculos se sentaram no nariz situado logo acima do bigode e começaram a ler. Na mesa do lado ela deixou cair o sorriso na chávena de chá que fumegou de desejo. O desejo a fumegar na chávena de chá. Na chávena de chá o desejo. A fumegar. A fumegar. O desejo. O desejo. Fumega em chá dele. A chávena quente.
presunção e água benta da primeira me penitencio amiúde da segunda tomei por imposição, de quem achou por bem culpar-me, do “pecado” da carne que até então, não cometera quer por indigência, ou sequer por consciência.
quiçá por culpa do atrevimento de ousar ter nascido, invadindo a pureza imaculada das batinas, conspurcando o branco sagrado, de saiotes e evangélicos colarinhos.
cresci na dureza que até hoje mordo, o pagamento por pérfido, da bula carnal, mastigando a casca de aleivoso e ímpio, chicoteai-me sacripantas chicoteai-me, por ousar monstruosas afrontas, adormecei serenos e castos, na alva brancura do vosso leito sevandija.
no Brasil uma mãe e uma menina de nove anos de idade, foram excomungadas por um bispo, pela prática de aborto.
nada de mais, a menina de nove anos só engravidou pelo simples facto de ter sido violada pelo padrasto.
nota:para evitar ataques de mentes tortuosas, esclareço; nada me move contra o povo irmão brasileiro, já que, o sucedido por lá, bem que podia acontecer e/ou acontece em terras lusas ou noutro qualquer canto do planeta.
Autor, poeta e artista plástico JOÃO VIDEIRA SANTOS, apresenta na Galeria Domínio Público de 4 a 24 de Março alguns dos trabalhos feitos em Lisboa e Brasília.
Com uma diversidade de trabalhos apresentados em exposições individuais e colectivas, a presente exposição caracteriza-se por trabalhos a acrílico, vinte e sete em papel Canson e três em tela, tendo por base figuras "incaracterísticas", denominadas por "Monstr'inhos".
Sobre estes trabalhos, a designer industrial ANGELA LADEIRO, da "Dimensão Design", escreveu: " Cada quadro é um apelo aos nossos sentidos, um desafio maior à nossa imaginação. "
Para a inauguração da exposição, a ocorrer no dia 4 de Março, quarta-feira, pelas 18.30 horas, estão convidadas diversas personalidades da vida citadina.
A exposição estará patente ao público de segunda a quinta-feira das 08.00 às 24.00 horas, sexta-feira e sábado das 08.00 ás 24.00 horas.
Encerra ao domingo.
DOMÍNIO PÚBLICO Rua de Entrecampos, 12-B LISBOA
Telefone: 210 100 892
João Videira Santos, para além de excelente artista e poeta, é um homem bom, um ser humano que irradia simpatia e gentileza.
Se vos for possível compareçam na inauguração, ou visitem a exposição num dos 20 dias da sua duração.
Agora ao escrever a palavra tetos, você está a referir-se a quê?
Aos mamilos da cabrinha e da vaquinha, ou àquilo que fica por cima da sua cabeça quando está dentro de um edifício?
Pois; é que, segundo os sabedores da coisa linguística, de acordos ortográficos e afins, o “c” não se lê, ou não se lia, sei lá, mas até lia, até lia, tanto que no caso da palavra tecto servia para abrir a vogal “e” conferindo-lhe outra sonoridade.
Terá sido criada a palavra tétos? Ou será feita uma adenda para a criar?
Pois, adendas; é a palavra fina usada quando em muitos casos se aplicam remendos.
Mundo mais que mudo, mais que cego e muito mais que surdo. De térmitas empanturradas no cerne podre, e a noite é cada vez mais antiga. Tudo isso ela conhece abrindo as coxas recebendo a culpa. Por cumplicidade aqueço a alma nas palavras para que o frio não me morda a carne.
A sociedade de que fazemos parte, por meio de crenças, regras, credos e, muitas vezes prepotência. Leva a que uma parte muito significativa, quase poderia arriscar a maioria nós, encare o conceito de “Vida normal”, como o viver dentro de quatro paredes, na “normalidade” existente dentro de quatro paredes. Onde o fechar da porta é o conflito do indivíduo consigo mesmo sobre se; tem ou não o direito de querer mais, deixando esquecido à entrada o direito de merecer mais. Há uma aceitação calada de que a “Vida normal” é a vida calada dentro de quatro paredes.
Falta-me o ar convincente de macho com olhos de carneiro mal-morto, e a voz enrouquecida vinda do além, tão do além quanto os confins melodramáticos de um criador inato, vinda assim de uma espécie de penumbra, urdida pelo cenógrafo dos cenógrafos. Obviamente que separo o mel do drama, e se os separo não é por uma questão de estética, até porque ficam lindamente juntos. Quanto a áticos; são do mais fino e puro bom gosto que se possa almejar. Separo mel e drama, pelo reconhecido mérito de ambos, claro que não me podia esquecer da melodia, pelos seus magníficos dons encantatórios com que nos massaja divinalmente os tímpanos. Naturalmente não me esqueço de separar o mel do dia, é da mais elementar justiça colocar em evidência a doçura do mel, em contraste com o amargo do dia-a-dia. O con, não sei quem seja, o traste conheço bem, sou eu mesmo. E esta lengalenga toda a propósito de quê? O mais certo é a propósito nenhum, e com toda a certeza sem propósito relevante. Ainda assim, pelo respeito que toda a gente de respeito me merece, e mais ainda aquelas que com bons propósitos e as melhores intenções me dizem amiúde; – tens um mau feitio do caraças – não és má rês – mas esse teu refinado fel não apanha moscas. Respeitosamente as ouço, as compreendo e lhes agradeço, bem sei que; – cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Só que; o que me move não é apanhar moscas, até porque a maioria das que se apanham são moscas-mortas, também conhecidas por galinhas-chocas. Das quais fujo a sete-pés exclamando; vai-te ganho que me dás perca. Se alguma valia eu possa ter, será justo que seja pelo que sou, e não pelo que gostariam que eu fosse. Confesso que em tempos que já lá vão me rendia às baboseiras, sedento de um ego gordo e lustroso. São pecados e pecadilhos, pedaços de granito que compõem o caminho da aprendizagem e do crescimento. Ainda hoje peco, bem sei, só que os motivos são outros. Até porque quanto mais aprendo, sei que menos sei. Mas ninguém tem culpa disso – cabe-me a mim aprender.
É por vezes sibilante a solidão dos audazes. Perante a astúcia nocturna dos algozes. E não me venham dizer que ser audaz, é ser potencial inimigo de tudo. Não me peçam vagidos de anuência para lhes proporcionar uma existência tranquila. E aos que lhes seguem os passos e lhes servem de capa. Seja lá qual for a motivação que os move. Podem ter a certeza que a uns e a outros, tudo farei para que a respiração lhes seja escassa.
ilusões meio ardidas de poeta discursando à lua quais beatas de cigarro
nem nos olhos nem na pena lhe brotam palavras felizes o mundo a sangrar discórdia
nuvem de todas as nuvens arame farpado de preconceitos a sombra pesada no peito
depois mentem-lhe mentem-lhe sempre a eito em sementeiras de antolhos
e na fúria sagrada do poema sem medo de punhais ou infâmias de olhos bem abertos fixando o mundo
ouviu-se um grito em cada verso; sacripantas, mangas de alpaca, cata-ventos miseráveis, pulhas do universo, abaixo a morte e a mentira, abaixo a morte e a mentira! abaixo! abaixo! abaixo! abaixo!
tua alma agora livre da desventura sonha docemente com as delícias da lua agora entre flores, uma outra flor fulgura guardando nas pétalas uma lembrança tua
“Desejo ainda jovem: morrer exemplarmente para que vocês escutassem como é um povo que me escreveu sempre.” (Maria Velho da Costa) E, como quem escreve, é tão original quanto a vida de cada um, na originalidade das coisas comuns, onde nos fundimos e até confundimos. Sois todos vós que me resgatais ao tédio, quando dele tenho consciência. Me libertais do exílio de quem sou, plagiando-vos descaradamente. E sim, escreveis-me todos os dias a todas as horas, e nem sempre dais conta disso.
“O gesto adiado enrola-se sobre si mesmo e adormece.” (Filomena Cabral) As casas já não me parecem lembranças vivas. As pessoas que mais me viam partiram; talvez sequiosas do eterno. As que restam estão à espera de partir enfrentando as agressões do transitório.
Repousa agora em paz Dom Quixote, por via da crise, não há mais lona para moinhos de vento. Não sei porque se escandalizam os que me atacam, quando escrevo para os ferir. Pois se é mesmo com essa intenção que o faço.
“o teu rosto nascia no mar e eu venerava-o por entre o sabor do nosso eterno nevoeiro.” (Ângela Almeida) A vida é uma praia aberta, um barco carregado de gente à espera de uma abertura para largar. Enquanto deslizamos na liquidez dos braços do amor. Divina ode oceânica, a única; onde o naufrágio assume o significado de salvamento.
uma éspécie de escritos avulso
para ler sem receituário
antónio paiva
Quem me conhece sabe que sou adverso a correntes, no entanto foi-me feita uma solicitação de modo tão simpático, e o assunto é premente e actual, que aqui deixo o link, para quem a quiser seguir.
Para os amigos, leitores e visitantes, há um novo sítio onde vos receberei com muito prazer. A minha página pessoal. Naturalmente, que por aqui continuarei a deixar palavras minhas. Aliás, há um caminho de volta até aqui.
Vá lá, toca a visitar, não me obriguem a chantagear-vos! E, se a quiserem divulgar, adicionar, falar dela a toda a gente, gatinhos e cochorrinhos, estejam à vontade.
“Todos sabem o que eu amo, todos sabem o que me repugna.” (Alves Redol) Os senhores dos pesadelos fabricam-nos sem intervalo. Fazem-nos de carne e sangue, embate de força bruta. Cruciante entrar e sair no transe da plena angústia. Não me deixam descansar.
Pode até parecer um tremendo disparate, é até bem provável que o seja. Mas – a pobreza já teve dignidade. E, o facto de a ter perdido – deve-se ao empobrecimento – de muitos dos novos-ricos. Conclusões saídas do tear de tecer razões. Seja lá isso o que for.
As lágrimas do banqueiro são a chuva ácida dos nossos dias. Estão ilíquidas as acções ao portador. E, para mal-dos-seus-pecados, cai a pique a euribor. Para consolo das suas súplicas de pedinte, são tapados os buracos à custa do contribuinte.
Na oficina do imaginário, coutada perene de lirismo e paradisíaco devaneio, onde o artista alimenta o génio. Aqui, à beira deste azul ondulado, o talento é necessário – mas – carece de sustento.
Devaneio em pauta, sinfonia da alma, uma morada arejada de manjericos nas janelas e malmequeres nas varandas. Um aroma intenso a desejo estendido no tapete da sala. Alma-alada e ao rubro sob o fogo intenso do lado esquerdo. E se amar é verdade, então que o seja em todo o esplendor da liberdade, e no enlevo das almas.
uma espécie de escritos avulso para ler sem receituário
Hoje entreguei-me ao fazer nada, porque o fazer nada me distrai, como se a vida fosse um feriado, que me dispensa do tédio. A fadiga cansou-se de me impor tarefas, por saber que substituí o agir pelo compreender. Já ouvi dizer que isso era uma questão de sensibilidade. Mas se dediquei noventa e nove por cento da minha existência à coisa material. Agora almejo alguma inteligência.
uma espécie de escritos avulso para ler sem receituário
antónio paiva
Despeço-me de todos vós até 2009.
Desejo-vos um Excelente Ano.
Não se esqueçam que da adversidade nascem as grandes oportunidades.
No dia 22 de Dezembro de 2005, deu-se início à sementeira desta pastagem. Desde então, com mais ou menos disponibilidade, com mais ou menos vontade e capacidade, tem-se procurado fazer com que não seque.
Entre algum passado e o presente, pode ser que até haja algum futuro. A ainda breve história deste sítio; é feita de palavras e algumas imagens, umas vezes com algum interesse, outras assim-assim e, outras coisa nenhuma. Também é feita dos que por cá passam, uns de modo visível, outros de modo discreto. Mas, todos eles são para mim muito importantes. Um agradecimento também, aos que já por cá andaram, mas que, por razões diversas tomaram outros caminhos, sim, porque a vida não é de caminho único.
Isto para vos dizer o quanto a todos estimo, e que é muito. E ao mesmo tempo manifestar a minha gratidão. Esperando poder continuar a contar com as vossas preciosas visitas e apoio.
No calendário pode ver-se que é época natalícia, mas não me vou alongar sobre isso, direi apenas; que o Natal me entristece cada vez mais.
Que o vosso Natal, seja aquilo que vocês mais desejarem. Sejam felizes, e procurem fazer alguém feliz.
Corre um fio de água no ribeiro, a levar o queixume da minha tristeza. Além pega de estaca o salgueiro, como é belo o tenro verde que viceja. Do seixo transpira o sofrimento da alma, fraca é a natureza humana. Aquieto-me só e com calma, no instinto regenerador que da natureza emana.
uma espécie de escritos avulso para ler sem receituário
Ao amor o tempo sempre lhe foi curto, enquanto cresce a vontade dos que o partilham. Ainda há pouco, mesmo há muito pouco, vi o poeta tocar com o dedo na paisagem. E dissipou-se a névoa da frescura da manhã, surgiu então a imensa página azul do oceano.
uma espécie de escritos avulso para ler sem receituário
Como se tudo fosse um absurdo – até o sonho. Como se tudo fosse ridículo – até esculpir silêncios. E abdicar do amor como quem desmancha o universo. Assim, como quem se despoja de tudo – e nada mais lhe pode ser subtraído.
uma espécie de escritos avulso para ler sem receituário
Tomara que fosse real a transmigração de almas entre os corpos. A sublimar a multiplicação do autêntico. Tomara que a promiscuidade não atingisse o cerne da razão. Que nenhuma força por mais hostil que fosse, vergasse a verticalidade ou pervertesse o instinto.
uma espécie de escritos avulso para ler sem receituário
Num vagueio impregnado de modorra, a ignorar o desassossego natalício das ruas. O corpo era a rena a puxar o trenó da alma, perseguindo o extremo da dor física, tão profunda como inútil. Há um frio quotidiano que se acentua em épocas de culto festivo. Um banquete de desespero onde se sentam todas as fomes.
uma espécie de escritos avulso para ler sem receituário
no banco corrido de madeira estendido no velho soalho do alpendre está sentada a velha senhora sorriso tão alvo quanto o branco dos seus cabelos há cravos e sardinheiras no pedaço de terra sobre o muro o pátio amplo a cozinha do forno o marmeleiro ao fundo num canto a porta de saída para o quintal a laranjeira a nespereira os corrimões de videiras as nogueiras a ameixoeira os pessegueiros a horta as oliveiras o sol na terra onde se colhia até vida
isso foi há tanto tempo!
agora não há mais a velha senhora o banco corrido de madeira o alpendre está vazio os cravos e sardinheiras esfumaram-se a cozinha do forno é uma ruína o marmeleiro já não existe o pátio amplo coberto de ervas daninhas é um exílio de sombras
isso é uma espécie de presente onde florescem angústias!
As duas últimas semanas trouxeram-me do pior e do melhor que a vida nos pode oferecer. A vida é um caminho muitas vezes sinuoso e íngreme. Outras vezes plano e muito gratificante. Do nosso crescimento e aprendizagem ambas as situações fazem parte. Vida. Por tudo isso tenho andado afastado de todos vós que me visitam e acarinham. Vou tentar o mais breve possível retomar a normalidade.
Deixo-vos algo que trouxe comigo da Escola Secundária de Anadia. Um poema escrito, musicado e cantado de modo brilhante, pelo jovem aluno Luís Martins.
Ser Poeta
Ser poeta é ter o dom
De compor música sem som, é sonhar
Expressar os sentimentos
Expor o que vai na alma, levitar
O meu desejo é ser poeta
Mostrar ao mundo o que sinto…e voar
Ser puro de coração,
Explorar o meu interior…e criar
Inspiração vinda do passado, reflectir sobre o presente
Sentir desejo de ir ao Céu, mostrar como é ser diferente
detenho-me às vezes em líricas indecisões o tempo corre as folhas amarelecem caindo as palavras amargam na boca da viuvez da alma por não rasgar a frágil teia que separa o tempo corre será de novo verão as searas voltarão a aloirar a alma afogueada então a colher vermelhas cerejas carnudas de vida.
a dor, concedida ao homem, pelos deuses. alimento indispensável, forjada em presságios, absorvida pelo corpo. deposito, todas as minhas dores, os meus prazeres, sedentos, de uma paisagem como tu, insofismável refúgio. ofereço-te, os meus queixumes, embrulhados em sussurros. junto de ti, enlouqueço, gemo, sofro, embriagado, entontecido, abrigo-me dos espíritos da noite. os meus braços, são roupas, vestindo a nudez do teu corpo.
sinto esta emoção inebriante
de um tempo quase imóvel
recortado na silhueta das fragas
o céu opressivo e circunvagante
a olhar o mar no fundo das ravinas
por aqui vagueio secreto e tangível
ao sabor desta brisa pacificadora
no derredor desta íntima paz verde
ínfimo silêncio uterino em pequenos pedaços
neste tempo mil vezes resolvido
fico-me à conversa com o descanso
de permeio com a verdade irrecusável do que sinto
cúmplice a acácia centenária
neste meu ir e voltar a sublimar as distâncias
aguardo um regresso em que possa falar de mim
na escrita sinto-me em férias do mundo. dentro dela; não me considero obrigado a nenhum civismo. tão-pouco; a qualquer congeminação telúrica ou humana.
nela me debruço; e apetece-me tudo menos ser responsável e ético.
ainda que as coisas do mundo; se me entranhem na alma até ao cerne, e não me deixem esquecer; o dever de ser solidário para com quem sofre.
nela me sinto livre, aliviado e contente; sim, porque a tristeza e eu somos a mesma pessoa.
antónio paiva
*inspirado na leitura de um texto sobre o Algarve, da autoria de Miguel Torga.
olhar de mármore sede arqueada alucinação do poeta diverso inesperado antagónico a génese do peregrino um registo entre muros no trilho saibroso da nossa cultura.
o verdadeiro não fala de chapéu na mão mesmo que; por subtis razões éticas a arte ausenta-se; em todos os lugares onde o homem não é livre.
A sorte virou navio desertor sem cordoalha nem mastros tão-pouco bússola ou sextante e de leme quebrado é impossível o regresso a casa. Vive agarrado à ponta de uma seringa que um dia conheceu numa festa de amigos vespeiro de tentações promessas de inolvidáveis sensações que na realidade não passam de estrume. Agora todos os medos são inéditos uma vida crucificada na ânsia de obter a próxima dose que o vício não pode esperar. Viver no vermelho os espasmos físicos apoderam-se da mente dançando nas entranhas e a razão dispensa tudo quanto possa assumir forma de razoável e lúcido vida ou morte tanto faz é urgente a próxima dose a alma está seca e o vício sedento a vida é imprópria e se matar for o meio para atingir o fim ele pássaro volátil matará obedecendo ao vício. Indiferentes os vindimadores de vidas vão fechando o cerco e alimentam-se da abundância podre gerada a partir de almas agarradas cachos em sangue que se anulam e oferecem para morrer antes do fim. Passivamente habitamos esta chuva ácida aliviando a consciência numa mera troca gratuita de seringas e no discurso encharcado de vómito liberaliza-se ou pune-se o consumo já de si uma prisão dentro ou fora delas o exercício da morte assistida no consumo assistido uma atitude vazia a conceber uma morte ironicamente higiénica.
O mundo é depósito de erros o homem a sua fonte maior.
Faço algumas leituras desatentas, vulgo; leituras na diagonal. Por vezes não são nem mais nem menos; do que um estado latente entre uma ideia e o exercício da escrita. Estado esse que em geral, se me apresenta, como um exercício mental muito intenso e desgastante. Daí a minha necessidade de o aliviar. Tenho de reconhecer que nem sempre foi assim. A minha abordagem à escrita tem sofrido alterações ao longo do tempo. Tempos houve, em que escrever, para mim se assemelhava ao acto de abrir uma torneira, e logo jorrava texto, fluido e despreocupado. A isso não era por certo alheio, o facto, de nessa altura eu escrever sem pensar em algum dia vir a publicar. Vivia desse modo o gozo da escrita no estado mais puro e inocente. Se tenho saudades desse tempo? Algumas, claro que sim. Até que um dia; por incentivos, muitos, e razões, diversas. Decidi publicar poemas e depois alguma prosa. Desde então, cada vez que escrevo, passo o tempo a protestar comigo. Ora em voz mansa. Ora em voz grave. Quantas vezes ralhetes irónicos. Isto de transformar a minha escrita, em escrita para os outros, às vezes é quase trágico. Ainda assim, acaba por dar algum sentido, ao meu destino de pensar. Uma responsabilidade de transmitir calor, em muitas circunstâncias a tremer de frio.
Alice passa o tempo a formar ilhas no seu quarto absurdo. Movimenta-se de um lado para o outro à espera do eco de existir. Parece aguardar alguém a quem perguntar as horas. Como se fosse urgente acertar o seu relógio da solidão. Fala só. Para se certificar que existe, ouvindo o som da sua voz. Lá fora todos se acham normais, e respiram a crise financeira que invadiu o mundo. Alice suplica; por delicadeza inventem-me um tempo qualquer. Por favor; preciso de o habitar. Queria tanto falar. – Alguém me empresta as orelhas? Os relógios habitam todos a mesma hora e Alice está só. Habita a hipnose do seu quarto absurdo. A recordar o futuro que haveria de ter. Só que o passado vergasta-lhe o presente. Se ao menos a beijassem por dentro. Pensa. Sentiria por certo a vida a poisar-lhe na cabeça como uma borboleta. Mas não. Não a beijam por dentro e a sua vida habita um fungo. Uma náusea viva. Pesa uma tonelada obscena de tédio. A sua vida. Um velório de anedotas. Humor negro. Um labirinto de ruas pequenas com cheiro a urina e suor acre que vão dar sempre ao mesmo sítio. Um quarto absurdo onde Alice embala fantasmas.
Habita-me agora um halo de sossego, um estar isento de desperdício. A vida a correr leve, sem murmúrios inúteis. Um brando correr da alma. Aqui, agora, até a aragem é perfeita. Um momento sereno e recanto meu. É assim o perfume humilde do amanhecer. Dentro e fora de mim tudo sinto por igual. Esta luz matinal serenamente a esculpir o mundo dos meus olhos. Sim, há momentos em que até a nuvem mais escura tem brilho. E aquela roupa branca a adejar no estendal, é a magia das memórias sem saudade, que me estão a bater à porta. Vou abrir. O azul por cima do azul do oceano corou. Atmosfera alaranjada beijando o mar. E esta brisa de emoção que desperta em mim. Esta luz que entra dentro de mim. Como uma criança em viajante adulto acabado de chegar. É neste tempo que os relógios não sabem contar, neste espaço que não se mede, que a Vida me habita a alma.
Passamos a vida a queixar-nos disto e daquilo. Mas depois; depois por comodidade ou cobardia, não tiramos as asas do armário. Há quem se dedique a pedir licença para existir. Uma espécie de liberdade acorrentada a palermices. O culto do medo de ter coragem. Talvez tudo comece no gosto de mastigar azedas na infância. Que depois se prolonga no exercício de mudar prioridades. A fome cansada que se estende no sofá-da-lei-do-menor-esforço. A bebericar um chá de tenham-piedade-de-nós. Na vida de casal os carros já são entregues com os maridos ao volante. Ainda há quem defenda que as meninas quando nascem, já deviam trazer um trem-de-cozinha. Nos restaurantes e bares, ao lado dos dísticos de proibido fumar, devia ser obrigatório a afixação de outros, com os dizeres; o homem é que paga a conta. O melhor mesmo é esperar. Não acham? Embora não gostemos de esperar seja lá por quem for. Esperamos sempre que tudo o que desejamos aconteça; por obra e graça do Divino Espírito Santo. Espera-se o milagre que dissipe o nevoeiro do presente, e nos presenteie com um sol radioso no futuro. Há a “ingenuidade” preguiçosa de acreditar; que a mudança de governo nos traga melhores dias. A realidade não se compadece com o desejo de chegar sem ter de ir. Lembram-se do “sonho americano”? Pois é; agora virou pesadelo para o mundo inteiro. Será que ainda acham que os sonhos não têm de ser construídos? Podemos até encetar a existência de aranha, e esperar que tudo nos venha cair na teia. Ainda assim; convém não esquecer da necessidade de construir a teia. A rendição ao deslumbre pelo que fizemos ontem, significa que estamos a desperdiçar o precioso tempo, destinado à tarefa a executar no dia de hoje.
Na cama onde não estou deitado, o meu corpo ainda dorme e eu continuo acordado. Oficialmente é domingo, e apesar de ser tarde, a lassidão do meu corpo, diz-me que é cedo ainda. Nesta lucidez torpe, a lentidão do meu pensamento, vagueia na inépcia, como se, estando, eu não estivesse aqui. É neste bem-estar baço de inquietação estagnada, que vivo uma espécie de realidade tépida. Há uma réstia de sol que não aquece, um céu azul quase fingido. Lá longe, ao fundo do mar, há uma névoa que o vento não varre, por estar ausente. Este olhar antigo que há muito conheço, tão antigo como a paisagem que me trás saudades. Os velhos montes, as árvores antigas e os velhos ribeiros, por onde continuo a chapinhar desde sempre, outrora despido de penumbras, e tudo eram paisagens transparentes. Ao sabor de moer pensamentos, vou entretendo a espera de coisa nenhuma. Nem mais nem menos do que espreguiçar a existência. Em puro manifesto de direito à preguiça, que, em minha opinião, devia estar consagrado na Constituição, e na Carta dos Direitos Humanos. Viver é um acto de intenção – ser – o pensamento é livre. A maior parte do tempo actos de impaciência da alma. Sem dúvida espelhados na face. Importante mesmo; é assumirmos a atitude de emancipação em relação ao tédio. O sermos nós sem condições.
A tarde acabou de entrar pela janela do costume, fazendo jurisprudência do hábito. A luz dá início à sua viagem pelas fissuras. E o texto começa a nascer na superfície das palavras. O pensamento viaja até à profundidade suprema, purificando o interior. Há palavras a aderir à página enquanto aguardam pela fulgurância do nascimento de outras. Conferindo ao texto a força e um brilho novo. Nestes instantes de privilégio surgem as preferências do desejo. Organizam-se os espaços íntimos. Dissolvem-se verbos e predicados em fluxos latentes de preia-mar, nascem frases no espraiar das ondas murmurando palavras. Olhando esse mar fico suspenso na minha vida interior, enquanto as gaivotas despertam do sono tardio. A minha vida está cheia de erros que me levam à escrita. Sou dependente das palavras, para colmatar um vazio lúcido que me habita. Este sonhar acordado de escrever mantendo a limpidez da página. O alcançar a pureza da escrita. Mas o enredo é sempre tão complicado. Reúno fragmentos, caligrafia de instantes, a pele da minha pele. E alma toda. Tudo isto eu entrego de livre vontade à essência da palavra. E em cada página procuro desfazer o erro, tarefa árdua e muitas vezes dolorosa. Ainda assim muito mais gratificante do que a existência em estado precário e ensimesmado.
Agora vou até à fonte beber das palavras. O livro.
Muitas vezes sinto-me a escrever no cais do deserto. Ultimamente cada vez mais. Quase transporto frases e versos nas olheiras. São dúvidas, é o que são. Dúvidas. Esta coisa de transformar ideias, pensares e olhares em escrita, às vezes é um massacre. Uma coisa é um escritor em escombros, outra coisa é; por via de sarar as feridas, transformar a escrita em escombros. Se tenho algo para dizer; preciso de o escrever. Mas dizer por dizer e escrever por escrever? Pois, é medíocre e só estreita a mente. E disso só pode restar o sabor amargo a remorsos inúteis. Valha-me a santinha da gaveta, que não me cobra promessas. Estabeleço aqui uma pequena analogia; se temos de ir a um evento, de cujo programa de abertura consta uma maçadora intervenção de retórica, o melhor remédio é chegar atrasado. Evitamos desse modo ficar a bocejar por dentro. Por isso entendo que; se preciso de escrever alguma coisa, e no momento não sai mais do que escrita grossa. O melhor é adiar. Desse modo, não boceja a escrita, não bocejo eu, e evito o bocejo do incauto leitor. Ainda que, a escrita não seja filha da exactidão de uma fórmula matemática, e passe tempos infinitos pendurada em cortinados de estética, há que evitar a todo o custo, transformá-la em qualquer coisa de carregar pela boca. E dúvidas, muitas dúvidas. A verdade é que todos nós temos os nossos momentos de temerosas cobardias, e os nossos momentos de coragem patética em exaltação. Dúvidas, muitas dúvidas. E somos tantos a errar por caminhos semelhantes, às vezes diferentes. O anúncio a publicar nos classificados; Equilíbrio Procura-se.
Há algo de inquietante que eu não consigo identificar e que me desconcentra. É como se eu vivesse de improvisos e desajustes. Um sonambulismo agudo e o futuro nunca mais amanhece. Ando a escrever os dias a lápis de bruma. Diz-me tu, poeta adormecido; o porquê de tantas ruas desertas e dias tão cruéis? Tens razão. Tu não apostas na bolsa. Como haverias tu de saber. Se ao menos tivesses um poço de petróleo no teu quintal, podias jogar ao monopólio. Se as coisas dessem para o torto, o banco central injectava mais dinheiro e podias continuar a brincar. Ardem em barris de petróleo os sonhos da grande massa humana. A fome dos mesmos de sempre, enche os odres dos especuladores impunes. Maldita cavalgada nevoenta que nunca mais tem fim. Caderno de raiva dor e morte, de páginas sempre a crescer. Um dia os bancos e as bolsas habitarão todas as casas do planeta, e as pessoas habitarão a fome e as ruas. O universo da política e da finança, converteu-se ao exercício do assassinato e da ruína da vida das pessoas comuns. Cuja existência está transformada, num lento e doloroso roer do tempo. Até à agonia. É este martelar constante nas bigornas da alma que não me deixa sossegar. Não me revejo na existência redonda de andarilho. Se me rasgam as veias bebo o sangue. Cerro a vontade e o pensamento, contra os fabricantes de imbecilidades e ásperos desdéns.
Todo o ser humano – o deve ser – quando mais cedo melhor.
Tenho fome. Ponho a mesa para escrever. Abençoada escrita, pão feito de espectros amassados. Tem temperos de silêncios, meditações e recantos de solidão. É a vida em permanente combustão servida à mesa. A alma em prece e coração pendular. Há silêncios a separar-me do mundo e gritos que dele me aproximam. Apetece-me colocar um lenço de névoa a vendar os olhos. Tantas são as vezes que perco os olhos ao vento.
Por aqui impõe-se a angústia do tédio organizado. Ouvi barulho lá fora, pareciam-me crianças. Fui ver; eram cães. A vida com os reservatórios vazios. O cheiro a fénico indica que a pureza foi desinfectada.
Muitas vezes mastigo croquetes de espanto, carregadinhos de gordura, a enjoar o futuro. É quando a vida vira verruga. Estranha coisa. Verruga. Os funerais são cerimónias organizadas para consolar os vivos. Não sinto qualquer desgosto se de mim discordarem. O pior de tudo é quando vestimos a nossa mente de virgindade postiça. Um autêntico analfabetismo dos ardis da alma, e não há livros nem manuais que nos salvem. Uma vez cego; cego para a vida inteira. Mestre na geração de equívocos. Pobre homem. Estranha coisa. Há uma corrente de pensamento que nos transforma em anões; curiosamente há quem goste. E não são tão poucos assim; são até muitos, mesmo muitos. Curiosamente. Estão a ver? Lá estão eles a cochichar de novo, enquanto isso, tudo se escoa por entre os dedos. A vida no modo mais provisório que há. Assustadoramente infixável. O poder intimida os opositores, não há saber, mas há poder. Puxar pelos miolos é muito trabalhoso. É muito mais fácil intimidar. Reduzir o opositor a uma sombra, onde ele não caiba. Intimidar. Estranha coisa. Intimidar. Hoje choveu a madrugada inteira, o dia amanheceu a sobrenadar noutra cor. O cão fartou-se de ladrar; tinha uma alma lá dentro. Do cão. Contristada a alma; e o cão também. A esperança devia tornar as pessoas mais jovens. Mas estão cada vez mais velhas. Deve ser mesmo falta de esperança. Das pessoas. Estranha coisa. Falta de esperança. Que espírito de vagabundo o meu, sempre de um lado para o outro. A existir em permanente estado de protesto. Com a coçada mochila das palavras às costas. A escrita. Às vezes protesto comigo mesmo. E magico versos e frases para encurtar as viagens. Estranha coisa. Magicar. Que não arrefeça nunca, o sangue quente das palavras.
A maior invenção da humanidade foi a escrita; a penicilina da vida.