30 março, 2008

os meus olhos





os meus olhos são frutos pendurados na árvore dos sentidos.
os ramos têm flores nos cabelos e aves poisadas nos seios.

27 março, 2008

Pensamentos em forma de panfleto frustrado

Várias vezes reflicto neste fenómeno; por mais que estudemos, as nossas qualidades humanas não se afinam. Por paradoxo conseguimos apenas mais exagero nos sentimentos e excesso nas paixões, trazendo à superfície tudo quanto de sórdido e inferior ferve na alma humana – desde a hipocrisia ao embuste.

Passamos o tempo a introduzir à força no cérebro, quilos e quilos de ciência – de forma redutora acabamos atolados em intrujices, imposturas, burlas e um amontoado de hipóteses vulgares.


antónio paiva

21 março, 2008

Mais um ano da minha existência

21 de Março

Dia em que decidi abandonar o ventre materno e fazer-me à vida.

Dia em que dizem ser o início da Primavera.

Dia que segundo dizem, este ano, é o dia Mundial da Poesia.

Todos os dias dizem muita coisa, sobre as coisas de todos os dias.

E que digo eu?

Digo, que sim, que não e que talvez. Digo que; por mais que diga, tudo fica por dizer.

Digo que; me bastam pessoas, livros, palavras, sol, mar, árvores, aves, montanhas, velhos, crianças e paz, a ordem pela qual enumerei o que me basta, não importa.

Digo que; basta-me viver e sentir.

Um grande abraço a todos/as.

19 março, 2008

O Senhor dos Farnéis

O Conde sofria intensamente com todos os reflexos sociais ao seu redor, leitor atento de prosas e versos, sofria e lutava para evitar a catástrofe. A sociedade era de facto muito engenhosa, criava sem qualquer espécie de pudor, um dia comemorativo para qualquer coisa, não por que a coisa fosse a verdadeira razão, mas por que a coisa alimentava outras razões. Há dias de tudo, comemorações pagãs e religiosas. O dia da mãe, do pai, do filho, da avó, da prima, enfim, um nunca mais acabar. Há o jejum na Quaresma, cujo abuso em tempos foi pago, agora é grátis. Há os Reis Magos, o burrinho, o menino e sua mãe no Natal, não me posso esquecer obviamente do tão ignorado carpinteiro. Irra, que me esquecia do bolo-rei e do folar, ainda bem que me lembrou a tempo.
Ah! Estava-me a esquecer do Senhor dos Farnéis. Um homem de pele lisa avermelhada e de ar lustroso. Amante da caridade, só havia uma coisa que o irritava. Existirem pobres. Mas o Senhor dos Farnéis pertencia à classe engenhosa, daí que arranjava sempre o outro lado de ver as coisas. Um ângulo diferente, como ele gostava de dizer. E por que não considerar esses miseráveis, acima de tudo os pedintes, como instrumentos de medição, das diferenças sociais, dos momentos febris de sentimentos em êxtase, daquele ar piedoso e fraterno deitado de longe a esses pedaços de carne semiviva.
De algum modo, aquilo até o incomodava, estendeu-se a meditar, enquanto coçava a cabeça do gato. E não é que passado algum tempo aqueles olhinhos começaram a brilhar? E que brilho, assim a atirar para a cor-do-irónico, num improviso iluminado, pariu a decisão:

- Era urgente acabar com os pobres, que bela ideia, assim podia dormir descansado e trocava os remorsos por dinheiro, o que faria dele um homem ainda mais rico, podendo desse modo viver uma felicidade mais farta.

Ainda assim, aquela ideia tinha uma pequena ruga que o incomodava. Não podia passar sem a almofadinha da caridade, não, isso é que de todo, não. Voltou a coçar a cabeça do gato durante mais alguns momentos, a lâmpada acendeu de novo e pariu nova decisão:

- Iria estabelecer um protocolo com o departamento de investigação, de uma qualquer universidade, para que fossem criados e produzidos milhares e milhares de andróides, com ar de mendigos, trajados a rigor de vestes andrajosas miseravelmente concebidas.

Seriam distribuídos aleatoriamente, por praças, avenidas, vielas e às portas das igrejas de todo o mundo. Estariam programados para repetir incessantemente: Uma esmolinha por favor!

- Sou um génio! Sou um génio!
Repetia com grande eco, na sua consciência, o Senhor dos Farnéis. O investimento para além de rentável, era dedutível nos impostos ao abrigo da lei do mecenato e acumulava nos benefícios do ego. Podiam deste modo, o Senhor dos Farnéis e seus pares, continuar a despejar sacos de caridade piedosamente.

O Conde observava tudo isto desesperado, sentia uma enorme necessidade de transcender todas as preocupações que o dominavam. O seu desespero acentuava-se ao ver que poetas e prosadores, que julgava serem seus aliados, rendidos aos dias de qualquer coisa. Pois era exactamente nesses dias, que os escribas mais coçavam os fundilhos nas cadeiras, vergando as escrivaninhas com o peso da sua criatividade, e esmagando de forma eloquente as penas contra as pálidas folhas de papel, criando borrões atrás de borrões, como se de um prazer orgásmico se tratasse.

As gráficas imprimiam noite e dia a um ritmo alucinante, cartões de boas-festas, de profundas condolências, feliz dia do pai, da mãe, da criança, de Natal, Santas Páscoas, feliz dia da poesia e dos poetas, da prosa e dos prosadores, da caridade, da hipocrisia, feliz dia de qualquer coisa.

Foram concebidos enormes cartazes, afixados em todas as praças e avenidas do mundo, com os seguintes dizeres:

Morte ao Conde!

Viva o Senhor dos Farnéis!

15 março, 2008

Relato de uma viagem com livros




A quem interessar, pode ver o relato da minha viagem com livros, entre os dias 3 e 8 de Março.

Com imagens e algumas palavras. AQUI!

P.S.
Peço desculpa por, desde há algum tempo não ter publicado aqui nada com interesse.


Bom domingo e óptima semana.

11 março, 2008

O Livro "Navegando nas Palavras" em destaque no Site da Ajuda de Berço


Clicar na imagem para aceder.
Abraço a todos/as.

01 março, 2008

Uma Viagem Com Livros

No próximo dia 3 de Março, darei início a uma viagem por diversas escolas dos distritos de Aveiro e Coimbra. São meus companheiros de viagem os três livros de poesia que já publiquei. Navegando nas Palavras, Janela do Pensamento e Juntando as Letras. Falar de livros, de poesia e da escrita em geral, é algo que me apraz fazer em qualquer lugar. No entanto, é nas escolas o meu lugar preferido. A saudável irreverência das crianças e jovens é para mim o estímulo maior. Desmistificar a escrita e os escritores é algo que pretendo fazer. Estimular e incentivar crianças e jovens a ler e a escrever, é o meu grande objectivo. Estas visitas estão integradas no Programa Ler +.

Aqui fica o roteiro:

Segunda-feira dia 3 de Março, a partir das 11 horas.
Escola Profissional Agrícola Afonso Duarte – Montemor-o-Velho
Largo da Feira – Montemor-o-Velho

Segunda-feira dia 3 de Março, a partir das 14 horas.
Escola Profissional de Montemor-o-Velho
Estrada Nacional 111 – Montemor-o-Velho

Terça-feira dia 4 de Março, a partir das 10 horas (durante todo o dia).
Escola EB 2,3 de Anadia
Moita – Anadia

Quarta-feira dia 5 de Março, a partir das 10 horas.
Escola Secundária da Mealhada.
Estrada Nacional 1 – Mealhada

Quarta-feira dia 5 de Março, a partir das 14 horas.
Escola Básica do Pereiro
Pereiro – Anadia

Quinta-feira dia 6 de Março, às 18:30 horas.
Escola Secundária Infanta Dona Maria – Coimbra
Sessão aberta a toda a comunidade escolar, alunos, professores e pais.
Rua Infanta Dona Maria – Coimbra

Sexta-feira dia 7 de Março a partir das (horário a definir)
Escola EB 2,3 Dr. João Garcia Bacelar – Tocha
Gândara – Tocha


Para terminar a semana em beleza, farei uma apresentação do meu livro “Navegando nas Palavras” na cidade do Porto, que tão bons momentos me tem proporcionado.

No dia 8 de Março, a partir da 19:30, mais coisa menos coisa.

Na Livraria Leitura Books & Living, no Shopping Cidade do Porto.

Rua Gonçalo Sampaio, 350 – Loja 238 (Próximo da Rotunda da Boavista)


Um abraço a todos e até já.

28 fevereiro, 2008

Lançamento do Livro Palavras (O)usadas

Palavras (O)usadas, o mais recente livro de poemas de António Barroso Cruz será apresentado públicamente no Funchal amanhã, 29 de Fevereiro às 18h00 no "foyer" do Teatro Municipal Baltazar Dias. Esta é a segunda incursão do autor, em termos de publicação a solo, na área da poesia, depois do sucesso de vendas que tem sido o livro Intimidades. Palavras (O)usadas é superiormente ilustrado pelo arrojo criativo do artista plástico Marco Fagundes.
António Cruz, é um excelente escritor e poeta, de quem tenho o privilégio de ser amigo.
Deixo aqui um perfume da sua poesia:
HOJE SOMENTE

Hoje,
somente hoje,
quero inscrever
nos papiros
as nódoas
deste meu prazer doentio
que ficará para
sempre marcado
nos lençóis do tempo.
Promulgações
reais desse
Hórus que trago em mim,
celebrando
a vida com o vinho
envelhecido
nas ânforas sagradas
onde mergulho
os meus sentidos.
Entre a dor
do crepúsculo
e as lágrimas
da alvorada.
  • Compareçam.

13 fevereiro, 2008

Momentos de felicidade





A vida com a Primavera nos olhos.

antónio paiva

03 fevereiro, 2008

Inquietude

Nesta inquietude que me assola, o desejo de partir numa viagem longa, é cada vez mais marcante. Todo aquele mar diante dos meus olhos atrai-me compulsivamente. Todo aquele poder azul fascinante, a minha fixação de que em cada fim há sempre um princípio. A leitura de lugares longínquos, seria uma boa ajuda para o conhecimento do meu espírito e dos recantos mais recônditos da minha pobre alma. A profundeza do mar é algo que comparo ao mais profundo de mim, por desconhecer uma coisa e outra. O mar espelho do céu, companheiros passo a passo, fervilham nuvens e ondas. Tal como em mim, nuvens de dúvidas, ondas de querer. As grutas de que sou feito são iguais a tantas outras no fundo do mar, penso. Mistérios, coisas belas e menos belas, lugares sombrios ou pejados de peixes coloridos, algas e corais. Tantas coisas que eu desconheço. Uma ignorância que me deixa inquieto. Deito-me tantas vezes de corpo e alma em azul, cabeça ao abandono e membros estendidos. Olhar a pique no universo.

São tantas as vezes que o que sinto foge das regras básicas impostas. São tantas as vezes que quero partir já amanhã. Não se trata de uma vontade contra o que me rodeia, contra quem me ama e acarinha. Sou eternamente grato a tudo isso. Amo tudo e todos, embora a maior parte do tempo não seja capaz de o fazer sentir. Dentro de mim de algum modo também me amo, umas vezes amo-me até me castigar, outras castigo-me até me amar.

Nas janelas, varandas, terraços e miradouros de onde observo o mundo, o meu olhar fixa-se sobretudo na luz, uma luz que me invade e me toma conta, que me diz o tempo todo que posso ser melhor, bem melhor. Ah! Inquietude minha, que me agitas e me fazes renovar, renovar o pensamento e os desejos. A verdade é que se quero partir, é apenas porque anseio o regresso a mim. Partida e regresso fazem parte de uma viagem em busca de respostas. Sobre mim, sobre ti, sobre eles, sobre nós, sobre todas as coisas que me fascinam, repito: sobre tantas coisas que desconheço.
Ah! Inquietude minha, que fazes chover tantas vezes dentro de mim, tanto que às vezes me transborda pelos olhos alagando o rosto. A verdade é que depois de chover, o meu rosto vira sol e os meus olhos astros brilhantes, os meus lábios formam um vale sorridente a transbordar de alegria. Volto a olhar o mar, é fim de tarde, quase noite, o poente fica do meu lado direito, o sol vai despejando enormes quantidades de tons alaranjados sobre o mar. À minha frente as Desertas sorriem, o Lobo Marinho regressa de Porto Santo, sulcando o mar laboriosamente, ansioso por atingir o merecido repouso de mais uma noite ancorado na baía do Funchal. Eu sorrio também, recolho-me consciente de que se não parti para uma longa viagem, tive uma longa conversa comigo próprio. Mesmo sabendo que há tanta coisa que eu desconheço e ambiciono conhecer, estou certo de que aprendi mais alguma coisa. Aprendi sobretudo, que muitas vezes até vale a pena eu falar comigo.

27 janeiro, 2008

sei lá quantos sou



um teclado
zero pensamentos
repito-me tantas vezes
sei lá quantos sou
uma pilha de livros
insónias, insónias, insónias
a minha vontade é uma meretriz
que me troca por qualquer cama
sei lá quantos sou
atrás de mim vem outro
e outro ainda e mais outro
repito-me tantas vezes
um teclado
zero pensamentos
sei lá quantos sou
um monte de papéis
instinto, instinto, instinto
a minha ansiedade é uma borboleta louca
esvoaçando aprisionada nas grades do martírio
atrás de mim vem outro
e outro ainda e mais outro
repito-me tantas vezes

se o vento me levar eu vou repetidamente vou
sei lá quantos sou, sei lá quantos sou…

14 janeiro, 2008

Revisitando-me

Fui gerado, nascido e cresci no campo, calcorreei atalhos sinuosos, por entre pinheiros e matagais. Perfumei-me nas pastagens floridas, escondi-me nos milheirais. Pastoreei ovelhas e cabras, espantei pardais. Escutei encantado o canto das rolas. Conheço o cheiro do estrume e da hortelã, o odor da terra arada. Chapinhei em riachos e ribeiras, mergulhei no rio, sei de cor o coaxar das rãs nos charcos. Ouvi melros, cotovias e rouxinóis. Procurei ninhos, apanhei pássaros e atirei pedras ao vento. Viajo no andar compassado e firme das juntas de bois lavrando a terra. Semeei, plantei e colhi. Sinto ainda a dor do frio nos dedos das mãos em Dezembro, quando apanhava azeitona por entre as ervas cobertas de geada, doíam tanto até deixar de os sentir. Mas o cheiro do azeite nos lagares compensava todas as dores, o sabor no prato era a melhor recompensa. Adormeci vezes sem fim ao calor do lume, cabeça apoiada nos joelhos e pensamento deitado nos sonhos.
Desfolhei massarocas ao luar, beijei moças afogueadas ao encontrar o milho rei. Colhi maçãs e roubei figos de mel a pingar. Das uvas sei todos os sabores, vindimei e pisei uvas, corei ao cheiro do mosto, provei o vinho. Retenho o perfume das acácias, do rosmaninho na Páscoa e do alecrim nas colheitas do mel. Laranjas e tangerinas perfumavam-me as mãos. Noites a fio acotovelado a sonhar e a contar as estrelas, escutando o cantar dos grilos. Na memória o chiar do balde na picota, onde a força dos braços retirava água dos poços para regar as hortas.
O cantar das moças no lavadouro enquanto estendiam a roupa a corar no relvado e nos silvados. O barulho ronceiro dos carros de bois carregados de mato para os currais do gado. A caminho de montes e vales borboletas estonteadas exibiam-me os seus bailados. No meu álbum de memórias, guardo a fotografia do rosto pintado de preto em lagares de amoras silvestres. Nos bailaricos, nos arraiais das festas populares colei o meu rosto noutros rostos e me descobri homem, o estremecer do corpo, o estalar do coração, no primeiro beijo às escondidas, o toque de jovens lábios carnudos, perfumados de inocência, mas ardentes na descoberta do desejo. Saltei fogueiras no São João, acendi o madeiro no Natal.
Nas quentes madrugadas de Agosto o regressava a casa voando de pés no chão e cabeça no ar, sorriso nos lábios. Inquieto, irrequieto, criativo, brinquei, corri, joguei à bola, ao pião, ao berlinde, à malha. Conquistei troféus nas barracas de tiro, bebi pirolitos e namorisquei. Sou um eterno peregrino da liberdade, das sensações e das coisas belas, mesmo que as sombras teimem em me visitar. Por isso, sento-me, oiço música, leio, pego nas memórias e nas palavras e revisito-me. Aquieto-me e descanso.

01 janeiro, 2008

Bem-vindos a 2008

(fotografias antónio paiva)
É com estas imagens da baía do Funchal que vos dou as boas-vindas a 2008.
Com votos de muita saúde, paz, felicidade e espírito de entreajuda.
Um grande abraço a todos.

31 dezembro, 2007

Até 2008


(fotografias antónio paiva)
Estimadas amigas e estimados amigos, é com estas imagens recolhidas por mim, hoje entre as 07:30 da manhã e as 07:45, aqui de casa. Que me despeço de todos vós até 2008. Se tiverem paciência vale a pena clicar nas imagens.
Desejo a todos:
  • UM FANTÁSTICO ANO DE 2008!!!

22 dezembro, 2007

Mais um ano de existência desta pastagem

Lugar comum mas verdadeiro, o tempo voa. Mas é de algum modo compensador, que as memórias e os factos possam ficar gravados. Tanto melhor quando há partilha e convivência.

Faz hoje precisamente dois anos que esta pastagem começou a ser semeada. O tempo foi passando, foi sendo regada e cuidada conforme as minhas capacidades, a minha disponibilidade e vontade. Pouco mais quero dizer sobre isso. Espero continuar a sentir vontade de o fazer. Enquanto sentir que o consigo fazer com alguma qualidade e oportunidade. Assim farei.

Resta-me agradecer a todos quantos aqui passam de forma anónima ou não.

Uma vez que é Natal, não me vou prender com pormenores sobre a forma como eu o encaro, nem como cada um o encara.

Desejo a todos um Bom Natal e já agora se puderem contribuam para um bom Natal de todos.

Um forte abraço a todos!

20 dezembro, 2007

Em jeito de oração

Uns pés descalços e gretados doem muito. Uma boca descalça a sofrer em silêncio dói muito mais. Um corpo que definha até virar cinza. A dor desaparece, a morte corta como uma lâmina sem provocar dor. O que sangra dos teus olhos? A dor? Ou a evidência crua da traição? O teu quarto é o Inverno mesmo quando agonizas ao calor tórrido de África.

És recém-nascido, és uma criança de meses, és um jovem, um adolescente, um adulto, um idoso, não importa a tua idade. Empurram-te para os campos minados, para as areias do deserto. Atraiçoam-te, ferem-te até à profundidade onde nada se esclarece. O caminho da água é o desespero, envenenam as nascentes.
O coração do diabo comparado com o desses biltres é quase terno.

É insensato dormir escapando moralmente a estes crimes. Há os criminosos activos que executam a sentença de morte, mas não menos responsáveis os coniventes e passivos. Para estes últimos, a pena mínima, era a amargura instalada na própria carne, no próprio sangue. Um formigueiro de vergonha devia-lhes percorrer a pele, poro a poro, provocando-lhes uma sensação miserável. Tão miserável que lhes condenasse o pensamento a trabalhos forçados. Mais pesados que a insónia e a fome.

E o Vaticano Senhor?

Não acredito que concordes com toda aquela opulência e riqueza. Não acredito que concordes que a fé dos homens bons, a dor, a miséria, a doença, a fome e a vida de seres humanos, seja explorada para alimentar a vida palaciana dos teus representantes. A fausta mesa de pão e vinho que diariamente lhes é servida.
A cada movimento dos seus gulosos maxilares corresponde o choro de uma criança a morrer de fome, o desespero de uma mulher violada, um corpo trespassado por uma bala…

Não, Senhor, de facto não sou um fervoroso e devoto praticante. Mas respeito a fé de cada um, tenho a minha própria fé. Rezo muitas vezes à minha maneira. Na verdade quando escrevo algo como o que agora estou a escrever, considero uma oração, plena de fé, convicção e de razão. O maior templo criado por Ti é o Mundo, por isso em qualquer lugar do mundo, cada um de nós pode dar expressão à sua fé. Estou certo que concordas comigo.
Tenho muitos pecados, sei que tenho. Mas em nenhum deles está escondida a morte de ninguém. Nem tão pouco a indiferença. Sei que és sensato e não me queres perfeito. O que na verdade Tu queres é que eu e os outros não sejamos criminosos, quer por acção, quer por conivência.

Isso, eu tenho a certeza que Tu não queres mesmo!

19 dezembro, 2007

Sessão Conjunta de Autógrafos, Na FNAC Madeira, dia 23 de Dezembro

No próximo domingo dia 23 de Dezembro, a partir das 11 horas da manhã, até cerca das 13 horas, terá lugar na Fnac Madeira, uma sessão conjunta de autógrafos. Na qual participarão os seguintes autores:

Ana Teresa Klut

António Cruz

António Paiva

Compareçam e divulguem!

Para além dos autógrafos, os autores terão o maior gosto em inter-agir com os leitores e amigos.

Até lá!

07 dezembro, 2007

Prémio Nobel

São tantas as vezes que abro um livro e invariavelmente detenho-me nas mesmas páginas. Actos ilúcidos de uma lucidez que se anseia. O saber da existência de escritores que nunca escreveram uma palavra, que nunca publicarão um livro, mas que dia-a-dia registam nas páginas da vida, escritos dignos de um prémio Nobel da Literatura. Neste estruturar da existência, feito de leituras, entre frases e parágrafos inteiros. A memória devolve-me os anseios de tantos que viram os seus sonhos virar pesadelos. Quando os sonhos se desordenam, o espírito fica difícil de soerguer. É nestes momentos que desejo confundir-me com a terra, para que não me perturbem o pensamento. Sempre que me apetece desistir, verifico que somos feitos de incoerências, contradições e outras particularidades singulares. Na eminência de pronunciar o meu nome, multiplica-se o segredo das palavras. A procura de algo mais ajustado à inexistência da perfeição consome-me o sono, complica-me os dias, dificulta-me de algum modo, o comunicar com os da minha espécie.

Permaneço parte dos dias a ler, sempre presente está a consistência de algumas palavras, mesmo quando os gestos as ignoram. Identifico com naturalidade as crianças pelos olhos, reconheço o olhar dos mendigos, habitantes de todas as ruas do abandono nas cidades. O seu pedir de esmola deixa-me assustado, sinto o medo a percorrer-me o cérebro em arrepios. Nenhum medo nos prepara para outro medo. Todos eles são diferentes, isolados, violentos, devastadores. Proferimos tantas palavras desnecessárias à nossa sobrevivência, facilmente nos tornamos eternos amantes da culpa. Sempre que o sol aquece, o brilho das folhas das árvores fica mais intenso. É quando me lembro que só por existirem árvores, devíamos agradecer à vida. Observo-as, sinto haver em mim um universo de palavras adormecidas, que um dia hão-de despertar. O anseio das longas tardes de Verão, serenamente a olhar o mar, o submergir na vida interior de cada um de nós. O murmúrio de uma palavra, por alguém que luta desesperadamente pela vida, impressiona de tal modo, que se torna impossível alguma vez esquecê-la.

Assim se compõem livros sem escrever uma só palavra, ficando dispensada logo à partida toda e qualquer revisão de texto. As análises críticas e literárias, revelam-se inúteis, tal como o são sempre. O ideal era que os livros não precisassem de sair do imaginário. Não haveria registo, dizem-me. Pois que digam. Eu respondo: Aprenderíamos a ler com mais interesse nos olhares que nos são generosamente oferecidos. Escutaríamos com mais atenção aquilo que nos querem dizer, quase nunca escutamos, porque achamos que o que temos para dizer é sempre mais importante. Entre mim e nós, a beleza da palavra partilhada, é um lugar de privilégio. Atarefados e atolados em banalidades estéreis não damos conta disso. Acabamos por sucumbir na abstracção do pensamento. Debato-me na luta obscura entre a palavra e a narrativa. Nesta ânsia obstinada de me tornar perceptível. Cada vez mais me convenço, que nada posso fazer contra a espessura da existência, senão escrever. É redutor eu sei. Mas deste modo vou recolhendo instantes privilegiados do essencial da vida, em cumplicidade permanente, com escritores que nunca escreveram uma só palavra, mas que deixam a brilhante obra da sua existência.

Seremos nós apenas ecos e sombras? Viveremos as dúvidas até um sinal que nos ilumine a razão?

Embora eu não tenha a certeza se a vida é isto ou outra coisa qualquer, vou registando pormenores, as coisas mínimas a que poucos dão atenção. Na verdade as pessoas são por natureza distraídas, de si e dos outros, sobretudo naquilo que as revela.

antónio paiva

Bom fim-de-semana a todos.

02 dezembro, 2007

Amigos















seres estranhos até um dia
em que os passamos a amar
e passamos a ser amados por eles

são tantas as vezes que adormecemos nas suas tristezas
acordamos felizes nas suas alegrias e conquistas

há um olhar nobre entre nós
um sentir intemporalmente puro
um estar eternamente adolescente

na amizade um imenso campo fértil
onde arduamente lançamos todas as sementes que queremos preservar

há nisso o que as palavras não sabem
uma mistura de essências
que o lado esquerdo do peito tão bem nos sabe dizer

tal como em todas as paixões se cometem exageros
na verdade sentimos, acredito que seja isso o amor que tanto se fala




antónio paiva
Boa semana a todos.

30 novembro, 2007

breve















(fotografia antónio paiva)



o rochedo, que canta, e o sol, que abre a coroa
de ouro rubro, espantando a matutina bruma,
a flor, que estremece, e o pássaro, que voa,
a água, cheia de sons e de flocos de espuma



antónio paiva
Óptimo fim-de-semana a todos.