26 agosto, 2008

Naquele eu distante

Naquele eu distante habita um menino, veste fato-macaco de ganga azul barata. Feito pelas mãos de uma costureira de quem não me lembro. Tinha um bolso no peitilho para guardar os sonhos a estrear. Tapava um corpo franzino, de pernas esguias a correr atrás do arco.
Um par de olhos que voavam, duas mãozinhas irrequietas tal como a mente. Estou a vê-lo a trepar à ameixoeira por altura do Santo António, sentava-se num ramo e deliciava-se com aquelas suculentas ameixas. As borboletas e as abelhas eram suas companheiras de repasto.
Aqueles aromas tão intensos, o calor do Verão, aquele olhar azul sempre a pique para céu, naquele quintal do passado. Momentos tão breves como intensos, feitos de alegrias distraídas. Felicidade ingenuamente pura. O resto do mundo era bem mais pequeno que o seu. Um pequeno universo delimitado pelo tocar do céu nos montes circundantes. Mas tão suficiente para crescer e sonhar.
Havia nesse tempo uma avó, tão magra como o menino, vergada ao peso da idade, que lhe cozia pequenas broas no forno, recheadas com petingas e azeite lá de casa. Um petisco de lamber dedos e fermentar sorrisos de contentamento. Quanta gratidão avó Maria.
O menino cresceu, e tem agora tantos eus, muitos ainda meninos. E de tanto que é preciso para crescer, há um pouco de tudo, dentro dos meninos que cresceram dentro de mim, muitos ainda meninos. No Outono havia castanhas em Vale de Salgueiro.

Branco é o mural onde deixo as minhas confidências.

18 agosto, 2008

Sentir como quem vê

Neste viver às vezes morno, um estado de nem vida nem sonho. Nem mágoa nem amargura. Nada. Desligado. Vou a terraço ver-o-mar, vou ver por que preciso de ir. Vou por que ver me é importante. Depois vagueio nas palavras. Vagueio nelas por necessidade.
E por não acreditar que um corpo seja capaz de reter uma alma, e por acreditar; que uma alma será sempre capaz de evadir de qualquer cativeiro. Por tudo isso e por sonhar também, esvai-se a sombra dentro do peito. Se a ciência fosse exacta, exporia todas as verdades, e nada restaria por descobrir.
Não raras vezes, sou acometido pela angústia, de não sentir mais do que sou capaz de sentir. E muitas vezes o que sinto está tão longe, por que, muitas vezes o que mais se sente é longe. É como se de um universo de verdades incógnitas se tratasse.
Agora observo a minha gata estendida ao sol, e o escrever alcança alguma ternura. Experimento fechar os olhos também, em busca do requinte na escrita. O leve toque das pálpebras agrada-me, e uma brisa subtil emoldura-me o rosto.
Entardece a esta hora, recordo as videiras a trepar os salgueiros, nas margens daquele rio distante, quase remoto. E sinto como quem vê, o miolo do bago espremido pela ponta dos dedos, a saltar para dentro da minha boca infante.
E fecho de novo os olhos, num êxtase de conter vida, e sonho. Habitará para sempre dentro de mim, aquele sabor a melão maduro, das uvas colhidas nas videiras a trepar salgueiros, à beira daquele rio quase remoto. Neste fim de tarde quase solene, entretenho-me a escrever como quem sente. Um sentimento eterno, e nada mais, uma leve substância do espírito, contudo; a verdade.

Se eu deixar de sentir como quem vê, deixo de estar vivo.

Dito por quem sabe e sente

Vanessa Fernandes acusa atletas de desconhecerem o significado de alta competição
A vice-campeã olímpica de triatlo Vanessa Fernandes considerou hoje que há atletas portugueses que ...

A vice-campeã olímpica de triatlo Vanessa Fernandes considerou hoje que há atletas portugueses que desconhecem o significado de viver em desporto de alta competição, como em Pequim'2008. "A alta competição não é brincadeira nenhuma. Não é fazer meia dúzia de provas, andar a receber uma bolsa e está feito. Muitos não vêem bem a realidade das coisas. Não têm a noção do que isto significa. Se calhar por termos facilidades a mais", criticou. Quando vários elementos da Missão de Portugal nos Jogos Olímpicos têm dado as mais diversas e originais desculpas para o falhanço desportivo, a medalha de prata faz questão de se distanciar de alguns comportamentos. "Nunca na vida vinha para aqui para viajar e ver os Jogos. Para isso não vinha. O meu pensamento nunca foi assim", vincou, defendendo, em tom de brincadeira, que no fim dos Jogos Olímpicos se deveria fazer a avaliação a cada atleta. As declarações de Vanessa Fernandes surgem no mesmo dia em que o presidente do COP, Vicente Moura, pediu "profissionalismo e brio" aos atletas. A atleta do Benfica citou exemplos de falta de ambição: "É que há pessoas a quem lhes é igual ficar em 50º ou 20º ou o que quer que seja. Nunca pensaria assim. Até ficava desiludida se pensasse dessa maneira. Os resultados é que me dão ambição para fazer melhor para a próxima. E nunca estou satisfeita". Vanessa Fernandes diz que muitos não entendem o que é a alta competição: "É como um trabalho. Tem de ser feito. Devemos trabalhar para o que fazemos, no meu caso o triatlo. Há dificuldades em Portugal em entender isso". "Na alta competição deve haver objectivos concretos, pessoas em quem confiar a 100 por cento e nunca fazer as coisas só por si próprias. Ter sempre uma boa equipa, saber o que se quer, onde se está e o que significa alta competição", reforçou. A vice-campeã olímpica considera que às vezes não há pressão suficiente sobre os atletas no sentido de os fazerem perceber a realidade, "o que é pena, pois temos muitos talentos". "No atletismo, natação... o Tiago Venâncio, para mim, podia ser um grande atleta. Mas não há uma estrutura fixa nestes sectores, é tudo à balda, o que é pena", exemplificou. Do lado oposto, destacou o "trabalho e procura dos limites" no quotidiano de atletas da estirpe de Naide Gomes e Nelson Évora. Vanessa Fernandes considera mesmo que os actuais atletas são "privilegiados" e falou do seu caso, onde conseguiu tudo o que queria em termos de descanso, alimentação, treinadores, equipa de treino e apoio da família e amigos: "Que mais posso querer?". "Nos tempos do meu pai (Venceslau Fernandes, vencedor da Volta a Portugal em bicicleta em 1984) poucos eram capazes de competir assim. Era trabalhar para ganhar dinheiro e treinar por gosto. Admiro-o por tudo o que conseguiu como desportista, pois na altura não havia condições", disse. Esse é um dos motivos pelos quais também dedica a medalha ao pai: "É uma homenagem ao trabalho que fez, ao que competiu e às dificuldades que passou. Tudo o que conseguiu e me deu. Agora retribuo com esta medalha".
Depois deste desabafo feito por uma campeã da humildade, nada mais haverá para dizer.
Imagem e texto retirados daqui.

14 agosto, 2008

Meia-lua me basta

Meia-lua me basta, meia-lua uma ilha iluminada, um cais atracado, um navio ancorado, três ondas de ternura e meia-lua me basta. Nas dobras do manto da noite senhora dos sonhos. Estou calmo, sereno. Esplendor sem abismo, sossego. Desconheço o efeito do ópio, mas conheço o dos silêncios. Alguns permitem-me viver horas de outro modo impossíveis. Silêncios bordados de olhos.
Umas vezes o meu amor é longínquo outras vezes à beirinha. Umas vezes brisa calma outras vezes movimento inquieto das levadas. A desabar em cascatas nas encostas escarpadas. O tempo a escorrer e eu não penso em medi-lo. Por hoje amanhã também podia ser noite. Sonho suave a bebericar horas e meia-lua me basta. E o amor ali pendurado naquele cacho de buganvílias.
O viver ali diante de mim, no movimento parado dos arbustos. A nossa pele perfumada do mesmo sorriso. E os nossos braços entregam-se distraídos. Os lábios a pender do silêncio quase se tocam, os olhos chegam sempre primeiro e beijam-se. Aninhados num roçar de almas e meia-lua me basta. O teu sorriso abre-se num lírio branco.
A carne está presente, apenas como um eco longínquo, diluído em odores. Por agora, dela não sentimos saudades. É assim nos momentos em que não pisamos o chão.

Meia-lua me basta.

03 agosto, 2008

Por ora nem pensar

Há páginas preenchidas de dias pobres, coisas magoadas por via da desilusão. Há vivências que não sendo minhas, o são, como se eu; as viva quando as sinto, vejo. Um jogo da cabra-cega de olhos destapados, subterfúgios escondidos em almas iguais. No lusco-fusco das consciências, no intervalo dos erros, assim, bando de pardais, com grãos de acaso no bico, somos.
A boneca colorida de cores quentes, talhada na vagem gigante de alfarroba, vinda de uma ilha do pacífico, passa os dias pendurada por um fio de nylon, numa das extremidades da estante. Toda ela silenciosa, de olhar vago, talvez sinta saudades da sua terra. Não sei, não lhe consigo aparar um sentimento bem definido, um perfume musical, ou um ruído vago, é demasiado estática e triste. Se alma lhe foi dada, esta por certo a abandonou. Aqui fica registado este momento monótono, um divagar sem pressas, sem tristeza, sem desalento, e monótono sem que eu descubra a razão.
Talvez falta de eu saber como conduzir o pensamento, a matéria-prima existe, só que, de momento, não sei como lhe dar forma. É um vaguear de escrita, perdido, mas liberto, vadio. Uma paisagem incerta e eu um figurante ocasional. Sou um sem-vergonha intelectual, sem que me incomode de o ser, sempre que me apetece alinho palavras, como quem alinha flores em canteiros.


Era de esperar que agora aqui registasse um pretenso pensamento,
mas não; por ora nem pensar.

26 julho, 2008

Às vezes também escrevo histórias

– Que estranho; reparaste? O cliente pediu-me um carioca de café e um pires de azeitonas. Já trabalho nisto há tanto tempo e nunca me tinham feito um pedido assim. Sabes; as pessoas andam tão estranhas.
– Há dias um cliente disse-me que queria deixar uns quantos cafés pagos para umas pessoas amigas. Fazia anos no dia seguinte; disse-me. Depois disso nunca mais o voltei a ver. Passados uns dias, uma dessas pessoas a quem ele tinha oferecido os cafés, tomava café e lia o jornal. Ficou estarrecida, de olhos a saltar das órbitas e mudou de cor. Numa das páginas do jornal vinha a fotografia do tal senhor, e por baixo a notícia de que se tinha suicidado.
– As pessoas andam mesmo tão estranhas…
– Sabes; vejo fome na cara das pessoas.

– Sei! A fome vai para além da falta de alimentos, a fome a cada dia que passa, é muito mais do que dor física. É mágoa. Solidão. Tédio. Sensação de impotência. Morte por desistência.

Os rostos das pessoas estão cada vez mais ausentes de feições. Vestem um ar de sofrimento. Um ar a expor angústias e privações. Traços de indiferença de quem muito sofre. Há um modo social de estar perito em criar guetos humanos, pulverizando almas de alheamento, inércia e afastamento. Agora medito; o cursor a piscar e eu a coçar a cabeça da minha gata. Ela ronrona e depois lambe-me a mão.
Afectos claro, está bom de ver e muito melhor de sentir. Também eu às vezes tenho a sensação de que em tudo o que digo, nada tenho para dizer. Mas só às vezes; acho eu. Vida cerebral. Gosto de pensar o amor como um acto de bordar sentimentos. Gestos simples de criar bem-estar partilhando. O amor exacerbado complica tudo; assim o penso. Vida sentimental. A minha contemplação vai para além da estética, não me custa nada assumir que de algum modo há uma fé que me move. Não faço questão de a enquadrar nos padrões convencionais que definem fé. É a minha, naturalmente semelhante à de muitos outros. Sei de um destino igual para todos nós, ainda que por caminhos diferentes. Fé não é matemática, é algo abstracto dotado de força que nos faz mover. Também eu faço os meus retiros mesmo não sendo eremita. Vida espiritual.
Vou aos poucos descobrindo de onde vêm as dores que às vezes me atormentam e cuja origem desconheço. São coisas que o meu olhar regista, a minha mente guarda e a minha alma acusa. Depois as pessoas sentem necessidade de me contar coisas. Eu, sempre que para isso me sinto capaz, empresto-lhes as minhas orelhas. Precisam de aliviar o peso da memória e da consciência. Às vezes um fardo demasiado pesado. Eu compreendo-as, não raramente necessito do mesmo remédio. Só que tenho alguma vantagem em relação à grande maioria delas; escrevo.
As minhas virtudes são dúbias e os meus vícios incontáveis, o que não me impede de fazer frente aos espantalhos de enxovalhar vidas. Da minha consciência íntima extraio o dever de ser solidário com os meus semelhantes. Sem que para isso careça de vestir trajes forçados.

Ainda que a vida se possa fingir não me agrada.

11 julho, 2008

nem sempre se viaja com o corpo

(fotografia antónio paiva)

Só não viaja quem se resigna a não fazer mais do que cumprir deveres.

Bom fim-de-semana a todos ou boas férias se for o caso.

30 junho, 2008

Feira do Livro de Barcelos

Feira do Livro de Barcelos

Dia 2 de Julho a partir das 21:30

Lançamento dos livros:

“Sétimo Vão”
De Flávio Lopes da Silva

“Contos de Água e Areia”
De José Torres

Estarei a apresentar os livros e os autores, na companhia de Alberto Serra e Branco de Matos.


Dia 4 de Julho a partir das 18:30

Estarei presente no Stand da Associação Às Artes – Movimento Artístico – Cultural de Barcelos. Para uma sessão de autógrafos e contacto com o público.

Compareçam.

27 junho, 2008

coisas do pensamento





O pior dos corpos é confinarem-se à história da idade.
Muito pior é quando as mentes a ela se confinam.

11 junho, 2008

Coisas de um 10 de Junho

(fotografias antónio paiva)
Coisas de um 10 de Junho passado no campo sempre com o mar lá em baixo e a serra do outro lado. Local; Prazeres, uma freguesia do concelho da Calheta, ilha da Madeira, Portugal.
Um grande abraço a todos quantos generosamente me visitam.


03 junho, 2008

hoje estou inquieto

hoje estou inquieto
há dentro de mim uma voz feita de vácuo
de mil almas em fuga vestindo angústias

imponderáveis horas vazias ilúcida limpidez
silêncios erguendo o vento em desassossego
desenho o pensamento no pó da vidraça

é um poema que me abala o corpo
um choro um ranger de desespero em relevo
milhões de bocas famintas cravam os olhos nos meus

não há romantismo que atenue tanta dor
infligida pelos gumes de um universo de poderes
e não me venham dizer que a culpa é do destino

no meu íntimo literário pairam as dúvidas
o remorso da felicidade escrita quando tantos agonizam
mendigando a extrema-unção esmola da desolação


hoje sinto-me como um bicho vivo transportando um cesto vazio!

01 junho, 2008

!

Crianças são todos os dias!

28 maio, 2008

significados

(fotografia antónio paiva)
É muito doloroso, quando um homem dá à sua vida o significado de um prédio à espera de ser demolido.

24 maio, 2008

Paragem

Estacionei o pensamento junto à velha árvore, estendi a toalha da existência sobre a relva, olhei a garrafa de vinho tinto deitada no cesto das dádivas, ela pareceu-me quase feliz. Atirei os olhos até onde me era possível, tinha aquela sensação de quem olha a caixa do correio vazia, quando espera correspondência importante que nunca mais chega. Pior do que isso, é que neste momento tenho a sensação que não devia escrever. Sei que ninguém se importa com isso, mas eu importo-me. Só que esta maldita bulimia das palavras não pára de me atormentar. Sou pior do que um viciado no jogo, as palavras passam à minha frente como cavalos desenfreados numa corrida sem fim, e eu não paro de jogar com elas, faço apostas atrás de apostas, raios, mas sinto que devia parar. Estou exactamente como o dentista, quando apanha um tipo esparramado na cadeira, não pára de apontar arranjos atrás de arranjos, como se o resto das nossas vidas fosse viver no consultório dele. Nestes momentos tenho a sensação que uma parte de mim estagna e a outra foge. Talvez seja a culpa a apertar-me cá dentro. Só que me dói e eu não gosto, estampa-se-me a crueldade no rosto.
Por este andar, qualquer dia não passo de um velho a regar malmequeres na varanda sem nunca ter escrito um romance. Às vezes convenço-me que a culpa é uma doença como outra qualquer. Nem sempre consigo reparar os meus erros, mas isso acho que ninguém consegue, penso; no intuito de me aliviar. Sei lá; obstrução versus confissão. Preciso de alimentar o corpo, porque se não o fizer a alma também é bem capaz de morrer, por isso não tarda vou comer qualquer coisa. Não sem antes pensar; qual a razão para toda a gente se achar especial, ou privilegiada, ou ainda isenta. O que sei é que todas as minhas análises não me isentam das minhas culpas. Há dias em que me sento surpreso nos meus pensamentos, já para não falar do modo como os problemas dos outros me privam do sentido de humor. Ainda assim escrevo poemas, será que o devo fazer? Não sei nem me apetece pensar nisso. Imagino como me sentiria, se um dia me pedissem para escrever um prefácio, para um livro de poemas de um poeta morto. Não sei se o faria, acho que não seria capaz, no entanto sei que há quem o faça com a maior das naturalidades. Há quem tenha o mórbido prazer de brilhar com a morte dos outros.
Frequentemente comparo a vida a um aeroporto, ninguém lá mora mas de algum modo todos por lá passamos. É certo que estamos em trânsito e nos movemos em diversas direcções, paramos tão pouco tempo, tão poucas vezes. Quando paramos parece que aguardamos sempre a bagagem que não transportamos connosco. Às vezes somos ou estamos tão vazios. Com o avançar da idade, ler a vida, é cada vez mais ler um livro ao contrário. Como que a olhar as cicatrizes dirigimo-nos sempre à última página, pelo menos ficamos a saber como acaba, caso não cheguemos a ter tempo para o ler por inteiro. Num universo de guerras intermináveis, são tantas as vezes que chegamos à conclusão; de que ainda nos amamos mas já não nos suportamos. Somos tão estranhos às vezes e outras tantas vamos além da bizarria. Talvez por isso, amiúde, a mãe natureza se zangue connosco e desabe tempestades sobre nós. O pior de tudo é que nunca mais aprendemos, e reagimos como se atendêssemos uma chamada telefónica originada por engano ou fruto de linhas cruzadas. Mas as máscaras vão caindo aos poucos, deixando a nu a espécie voraz, carregada de defeitos, de imbecilidade, de demências, de vinganças, de sadismo, de assassinatos múltiplos. A sociedade moderna criou espécimes que se devoram uns aos outros. Em duelos até à morte. Aproveito a paragem, abro a garrafa de vinho tinto e bebo.

- Eu sei o que sinto, e tu, sabes?

22 maio, 2008

Sessão de Autógrafos na Feira do Livro do Funchal

Sábado, 24 de Maio
A partir das 17 horas até às 20 horas, estarei na Feira do Livro do Funchal, para uma sessão de autógrafos, e dois ou três dedos de conversa com os amigos, no stand da Livraria Julber.

20 maio, 2008

Vigílias

A olhar o mundo do mesmo modo que o velho olha o relógio; falta-lhe tempo e sobra-lhe morte. Nem sempre a noite é semeada de estrelas, tão-pouco o luar surge para entornar a maciez da sua luz sobre todas as coisas. Às vezes a vida põe-nos a mão no ombro e dá-nos um sorriso amargo. Uns comem conversas aqui e ali, outros comem fome e choro um pouco por toda a parte. Os braços somem o tempo a sacudir canseiras, ainda assim não falta quem se dedique a fainas e fainas de ensejo, é bom que assim seja, afinal de contas a existência é uma jorna onde só com muito afinco se colhe a vida. Verdade que é uma praga de canseiras, mas não é menos verdade que a noite poisa sempre nas árvores, nunca lhes escutei um só queixume, suportam-na sempre até o dia nascer. É verdade que podemos talhar o ócio a tempo inteiro, mas depois falta-nos tempo para o vestir, o passo seguinte é inevitavelmente a frustração.
De vez em quando escuto uma ou outra conversa, uns dizem que o dinheiro permite toda a liberdade do mundo, outros dizem que o dinheiro impede o mundo de ser livre. Eu se pudesse fazia-lhes a todos um depósito milionário de utopia. Tomemos como exemplo o Inverno, tanta riqueza numa estação que passamos o tempo a olhar como pobre e despida. Será assim tanta utopia? Ter na vida a Primavera a verdejar, o Verão da cigarra a cantar, o Outono da formiga a guardar, para no Inverno aquecer o frio sem dor. Não! Não me parece utopia, podemos guardar em nós a coisas boas e belas da vida o ano inteiro e, por que não, o cheiro das rosas em Janeiro.
Teceremos sempre razões para que seja desta e daquela ou de outra forma, é da nossa condição parar perplexos nas encruzilhadas mesmo que saibamos o caminho. O melhor mesmo é não ficarmos parados, o caminho levar-nos-á sempre a algum lugar. Não importa o tempo ou a distância até lá. Quando há bom tempo respiramos as sinfonias do azul e experimentamos a rouquidão dos vermelhos. Há quem diga que isso é uma consciente e estranha lucidez de nós, que só nos apetece fechar os olhos e ficar a sorrir para a eternidade, debruçando a alma à janela retendo nela toda a paisagem, aí sentimo-nos felizes por descobrirmos que ainda sabemos sorrir. O melhor mesmo é revisitar todas as sensações, antes que tudo se perca por entre os dedos, acima de tudo acreditar e nada temer. Ainda há quem não saiba que os amantes se encontram secretamente junto à rosa-dos-ventos, escapando assim à tirania de olhares indiscretos. Se eu mandasse, as naus seriam corpos de mulher, que levariam os homens a todas as latitudes e longitudes do Universo. Quão suaves e ternos seriam os movimentos das marés, enquanto beijavam o sorriso dos litorais à sua passagem, pontificando as emoções. Certamente que os sentidos seriam muito mais do que cinco.
Seria suficiente um olhar para que os corações rissem de alegria, manifestando-se desse modo enquanto a felicidade se passeava nos braços, nos nossos braços, o abraço. Não é possível ignorar a beleza das gaivotas entusiasmadas a planar em voos rasantes, poisando sobre as águas calmas soltando os seus gritos de alegria. Ao largo as naus a deslizar como crianças divertidas, a iluminar-nos os olhares, imagem de opulenta doçura em permanente vai e vem sobre as águas.


- Se assim fosse, seríamos sábios?

16 maio, 2008

breve VII





a janela desenha o amanhecer,
há o véu húmido dos teus olhos.
a tua boca é um ninho de ternura,
feito de ervas tenras e frágeis,
germinando na linha dos teus lábios.


antónio paiva

14 maio, 2008

breve VI





gostava que fosses o céu e eu a montanha;
o beijo era o tempo por inteiro e,
encontrávamo-nos todos os dias ao pôr-do-sol;
porque ao nascer do dia nos tocávamos sempre



antónio paiva

11 maio, 2008

À conversa com Alves Redol

Bebo olhares pelas palavras, às vezes são apenas pingos de água na pedra que enfeita a nascente, tecendo factos à imagem das minhas ilusões. É também nas palavras que a vida dos homens se faz e desfaz. São muitas as noites em que me levanto e vagueio pelos quintais vigiando a criação. São quintais semeados de páginas e páginas, livros e livros. Uma dessas noites quis o acaso que me encontrasse com Alves Redol, lá para os lados da medida grande das palavras, nada mais, nada menos, do que quatro alqueires bem medidos perfazem a Fanga. No princípio olhou-me desconfiado, na sua pose austera, olhos vivos e de mitra na cabeça, lá estava ele observando a lezíria, fui-me chegando de mansinho, disse-lhe que na minha juventude o tinha conhecido acompanhado dos Gaibéus. Foi aí que ele me esboçou um leve sorriso de aceitação. Aos poucos a comunicação entre nós foi-se estabelecendo, disse-me a dada altura que; “não conhecia homens assépticos, desodorizados e incolores, que a existirem vivos seria horrível suportá-los na convivência…”. Eu disse-lhe; que lamentava ter de o contrariar, mas que conhecia uns quantos espécimes dessa natureza. Meneou a cabeça, ficou calado e pensativo. Há no entanto algo que ele me disse, com o qual concordo em absoluto; “Um escritor nasce todos os dias, insubmisso e firme, tanto para detectar injustiças, qualquer que seja a sociedade onde viva, como para repudiar o próprio ripanço que se apodera de alguns, quando aprendem, às vezes com verdadeira mestria, a fazerem quatro ou cinco pontos de croché.”
É, em minha opinião, muito gratificante estar perante um Mestre, não daqueles que o mercantilismo da palavra ou o amiguismo bacoco nos querem impor, mas daqueles que abnegadamente se fundiram ou fundem com a palavra, apenas com o intuito de a servirem, resistindo à patologia da vaidade imoral, de através dela se promoverem perdendo-lhe todo o devido respeito. Tive de lhe confessar que já era a terceira vez que lia a Fanga, quis no entanto deixar claro, que independentemente do valor social e político da sua obra, o que me fazia voltar de novo, era sem dúvida a sua delicadeza no trato da palavra. Sim, é para mim uma verdade incontornável, nos seus relatos da dureza da vida de homens, mulheres e crianças, as palavras são tratadas da mesma forma que nos momentos de alegria, são palavras tecidas de algodão e magia. Algo que só quem ama verdadeiramente a palavra é capaz de fazer. A sua linguagem é tão límpida, que dá a ilusão de a escrita ser coisa fácil. Puro engano. É tão difícil ser simples e belo, mas ao mesmo tempo tão delicioso.
Em determinado momento, talvez já cansado de ouvir o meu tagarelar, olhou-me nos olhos e disse-me; “Olhar o passado nem sempre será sinal de decrepitude, quero admiti-lo neste momento. Vou fazê-lo com o torpor do Inverno a carregar sobre mim todo o peso dos dias pardos em que nos deixamos afundar uns e outros. Nesta altura enferrujam-se-me as mãos, dói-me pensar, dói-me ter olhos, magoa-se-me a consciência por não saber ganhar braços, quando há tanto para construir…”. Perante palavras tão contundentes quedei-me pensativo. Passado algum tempo respondi-lhe apenas; tem toda a razão Mestre.
A verdade é que embora ele as tivesse proferido em determinado contexto, eu não consegui resistir à tentação de as transpor para outro plano. Ou melhor dizendo; de as espalhar como sementes da melhor qualidade no campo da escrita. Para que germinem e cresçam vigorosas construindo as defesas necessárias para que a palavra sirva o homem, sempre que este a estime, mas ao mesmo tempo que a palavra seja impiedosa e firme, quando este dela se aproveita despudoradamente em vez de a servir abnegadamente.
A madrugada ia longa quando o Mestre me disse que se ia retirar, mas não sem antes me deixar umas quantas considerações; “Conheço-me tão bem quanto possível. Nunca gostei de mim em demasia.” “O meu caminho tem sido duro; alegremente duro. Às vezes fico escalavrado, a sangrar, sem poder dar passada.” Mais adiante, a terminar, disse-me ainda; “ Em certos momentos ando pouco; algumas vezes pareço recuar. Não exagero, com certeza, se disser que caminhei em frente. Tanto mais que nunca pedi, nem aceitei, nem quero, a comparsaria dos que unguentam a triste a triste bazófia dos génios caseiros, pondo-os a bambolear como copletistas decrépitas ou como velhos ursos amestrados da minha infância. Nunca vi espectáculo mais degradante. Sou demasiado modesto, e também orgulhoso até ao desprezo, para que alguém me leve ao espelho dos bacocos. Todas as costelas que me arqueiam o esqueleto vêm de camponês e os meus antepassados sempre desconfiaram da fartura. É por isso que a minha charrua continua a lavrar num campo de pedras.” Dito isto acenou-me e foi-se embora. Eu, apenas consegui balbuciar um sumido; obrigado Mestre e até uma próxima.
Fiquei por aqui a meditar no silêncio da noite, porque a beleza das palavras me fazem esquecer o sono, e por ter consciência absoluta que para mim o campo da palavra, onde persisto dedicadamente em aprender a lavrar tem ainda muita pedra para separar da terra fértil que é a escrita. Toda essa pedra advém obviamente da minha falta de arte e engenho. Admito-o sem modéstia. Toda a salvação provém da tomada de consciência de que um naufrágio pode acontecer. Não me entretenho a tecer o futuro, pese embora o tenha sempre diante dos olhos. Não há em mim qualquer raiva contra o meu anonimato, é preferível ser anónimo do que contribuir para o caos. Importa-me tão-somente consolidar o meu sangue com o sangue da palavra. Todo o resto não passa de calores breves nas bocas de gente vulgar. Note-se que alguns até são condecorados, uns de forma socialmente mais alargada, outros no narcisismo de grupinhos, clãs e tribos.
Não me incomoda absolutamente nada, que apelidem de líricos os meus protestos, estarei sempre na primeira fila, denunciando o alimento feito de coisa nenhuma, com que escritores e poetas vorazes enchem os seus odres. Mais tarde ou mais cedo acabarão por morrer de enfarte, e a palavra e a escrita sobreviverão, naturalmente, por serem grandes e nobres.

A terminar direi; muito do que acontece e persiste, é porque comodamente viramos a cara e cerramos os olhos.


Os trechos do texto em itálico e colocados entre aspas, são excertos do texto “ À Maneira de Prefácio” da autoria de Alves Redol, publicado na décima primeira edição do seu livro “Fanga” editado pela Editorial Caminho com data de Janeiro de 1996.

08 maio, 2008

celebridades?!










A escritora?! Carolina Salgado ex-namorada do também escritor!? Pinto da Costa engravidou tranquilamente no Alentejo.