22 janeiro, 2009

in Genéricos 14




“O gesto adiado enrola-se sobre si mesmo e adormece.” (Filomena Cabral) As casas já não me parecem lembranças vivas. As pessoas que mais me viam partiram; talvez sequiosas do eterno. As que restam estão à espera de partir enfrentando as agressões do transitório.
uma espécie de escritos avulso
para ler sem recituário
antónio paiva

21 janeiro, 2009

in Genéricos 13




Repousa agora em paz Dom Quixote, por via da crise, não há mais lona para moinhos de vento. Não sei porque se escandalizam os que me atacam, quando escrevo para os ferir. Pois se é mesmo com essa intenção que o faço.

uma espécie de escritos avulso

para ler sem receituário

antónio paiva


20 janeiro, 2009

in Genéricos 12

(fotografia antónio paiva)

o teu rosto nascia no mar e eu venerava-o por entre o sabor do nosso eterno nevoeiro.” (Ângela Almeida) A vida é uma praia aberta, um barco carregado de gente à espera de uma abertura para largar. Enquanto deslizamos na liquidez dos braços do amor. Divina ode oceânica, a única; onde o naufrágio assume o significado de salvamento.
uma éspécie de escritos avulso
para ler sem receituário
antónio paiva

Quem me conhece sabe que sou adverso a correntes, no entanto foi-me feita uma solicitação de modo tão simpático, e o assunto é premente e actual, que aqui deixo o link, para quem a quiser seguir.

16 janeiro, 2009

Uma nova casa para vos receber

(clicar na imagem para aceder)
Para os amigos, leitores e visitantes, há um novo sítio onde vos receberei com muito prazer. A minha página pessoal. Naturalmente, que por aqui continuarei a deixar palavras minhas. Aliás, há um caminho de volta até aqui.
Vá lá, toca a visitar, não me obriguem a chantagear-vos! E, se a quiserem divulgar, adicionar, falar dela a toda a gente, gatinhos e cochorrinhos, estejam à vontade.
Um grande braço de estima e amizade.

08 janeiro, 2009

in Genéricos 11




Todos sabem o que eu amo, todos sabem o que me repugna.” (Alves Redol) Os senhores dos pesadelos fabricam-nos sem intervalo. Fazem-nos de carne e sangue, embate de força bruta. Cruciante entrar e sair no transe da plena angústia. Não me deixam descansar.

uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário
antónio paiva

05 janeiro, 2009

in Genéricos 10




Pode até parecer um tremendo disparate, é até bem provável que o seja. Mas – a pobreza já teve dignidade. E, o facto de a ter perdido – deve-se ao empobrecimento – de muitos dos novos-ricos. Conclusões saídas do tear de tecer razões. Seja lá isso o que for.

uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário
antónio paiva

04 janeiro, 2009

in Genéricos 9




As lágrimas do banqueiro são a chuva ácida dos nossos dias. Estão ilíquidas as acções ao portador. E, para mal-dos-seus-pecados, cai a pique a euribor. Para consolo das suas súplicas de pedinte, são tapados os buracos à custa do contribuinte.

uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário
antónio paiva

03 janeiro, 2009

in Genéricos 8




Na oficina do imaginário, coutada perene de lirismo e paradisíaco devaneio, onde o artista alimenta o génio. Aqui, à beira deste azul ondulado, o talento é necessário – mas – carece de sustento.


uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário
antónio paiva

02 janeiro, 2009

in Genéricos 7

Devaneio em pauta, sinfonia da alma, uma morada arejada de manjericos nas janelas e malmequeres nas varandas. Um aroma intenso a desejo estendido no tapete da sala. Alma-alada e ao rubro sob o fogo intenso do lado esquerdo. E se amar é verdade, então que o seja em todo o esplendor da liberdade, e no enlevo das almas.

uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário


antónio paiva

01 janeiro, 2009

Bem Vindos a 2009






(todas as fotografias antónio paiva)

Acredito que somos capazes de fazer de 2009 um bom ano!

Abraço.

Funchal 01/01/2009





Funchal 01/01/2009





Funchal 01/01/2009





Funchal 01/01/2009





27 dezembro, 2008

in Genéricos 6

Hoje entreguei-me ao fazer nada, porque o fazer nada me distrai, como se a vida fosse um feriado, que me dispensa do tédio. A fadiga cansou-se de me impor tarefas, por saber que substituí o agir pelo compreender. Já ouvi dizer que isso era uma questão de sensibilidade. Mas se dediquei noventa e nove por cento da minha existência à coisa material. Agora almejo alguma inteligência.

uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário

antónio paiva
  • Despeço-me de todos vós até 2009.
  • Desejo-vos um Excelente Ano.
  • Não se esqueçam que da adversidade nascem as grandes oportunidades.
  • Vamos à luta.
  • Um enorme abraço a todas/os.

22 dezembro, 2008

3º aniversário desta pastagem

No dia 22 de Dezembro de 2005, deu-se início à sementeira desta pastagem. Desde então, com mais ou menos disponibilidade, com mais ou menos vontade e capacidade, tem-se procurado fazer com que não seque.

Entre algum passado e o presente, pode ser que até haja algum futuro. A ainda breve história deste sítio; é feita de palavras e algumas imagens, umas vezes com algum interesse, outras assim-assim e, outras coisa nenhuma. Também é feita dos que por cá passam, uns de modo visível, outros de modo discreto. Mas, todos eles são para mim muito importantes. Um agradecimento também, aos que já por cá andaram, mas que, por razões diversas tomaram outros caminhos, sim, porque a vida não é de caminho único.

Isto para vos dizer o quanto a todos estimo, e que é muito. E ao mesmo tempo manifestar a minha gratidão. Esperando poder continuar a contar com as vossas preciosas visitas e apoio.

No calendário pode ver-se que é época natalícia, mas não me vou alongar sobre isso, direi apenas; que o Natal me entristece cada vez mais.

Que o vosso Natal, seja aquilo que vocês mais desejarem. Sejam felizes, e procurem fazer alguém feliz.

Um grande abraço a todas/os.

21 dezembro, 2008

in Genéricos 5




Corre um fio de água no ribeiro, a levar o queixume da minha tristeza. Além pega de estaca o salgueiro, como é belo o tenro verde que viceja. Do seixo transpira o sofrimento da alma, fraca é a natureza humana. Aquieto-me só e com calma, no instinto regenerador que da natureza emana.

uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário


antónio paiva

20 dezembro, 2008

in Genéricos 4





Ao amor o tempo sempre lhe foi curto, enquanto cresce a vontade dos que o partilham. Ainda há pouco, mesmo há muito pouco, vi o poeta tocar com o dedo na paisagem. E dissipou-se a névoa da frescura da manhã, surgiu então a imensa página azul do oceano.

uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário

antónio paiva

19 dezembro, 2008

in Genéricos 3





Como se tudo fosse um absurdo – até o sonho. Como se tudo fosse ridículo – até esculpir silêncios. E abdicar do amor como quem desmancha o universo. Assim, como quem se despoja de tudo – e nada mais lhe pode ser subtraído.

uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário

antónio paiva

18 dezembro, 2008

in Genéricos 2

Tomara que fosse real a transmigração de almas entre os corpos. A sublimar a multiplicação do autêntico. Tomara que a promiscuidade não atingisse o cerne da razão. Que nenhuma força por mais hostil que fosse, vergasse a verticalidade ou pervertesse o instinto.

uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário

antónio paiva

16 dezembro, 2008

in Genéricos

Num vagueio impregnado de modorra, a ignorar o desassossego natalício das ruas. O corpo era a rena a puxar o trenó da alma, perseguindo o extremo da dor física, tão profunda como inútil. Há um frio quotidiano que se acentua em épocas de culto festivo. Um banquete de desespero onde se sentam todas as fomes.


uma espécie de escritos avulso
para ler sem receituário

antónio paiva

15 dezembro, 2008

A vaidade é um sítio




A vaidade é um sítio, um lugar comum, uma pensão barata onde dormimos e acordamos e nos rimos que nem parvos.

Vá-se lá saber porquê; este pensamento nasceu aqui.

09 dezembro, 2008

Lançamento do livro "Leituras Soltas" Fnac Madeira

(clicar na imagem para ampliar)
No próximo sábado dia 13 de Dezembro pelas 17 horas na Fnac Madeira.
Eu e os/as restantes autores/as estamos à vossa espera.

A totalidade das receitas da venda deste livro, serão entregues à AMI e Rotary Club do Funchal.

Um abraço.

08 dezembro, 2008

as memórias são um livro




no banco corrido de madeira
estendido no velho soalho do alpendre
está sentada a velha senhora
sorriso tão alvo quanto o branco dos seus cabelos
há cravos e sardinheiras no pedaço de terra sobre o muro
o pátio amplo a cozinha do forno o marmeleiro ao fundo num canto
a porta de saída para o quintal a laranjeira a nespereira
os corrimões de videiras as nogueiras a ameixoeira os pessegueiros
a horta as oliveiras o sol na terra onde se colhia até vida

isso foi há tanto tempo!

agora não há mais a velha senhora o banco corrido de madeira
o alpendre está vazio os cravos e sardinheiras esfumaram-se
a cozinha do forno é uma ruína o marmeleiro já não existe
o pátio amplo coberto de ervas daninhas é um exílio de sombras

isso é uma espécie de presente onde florescem angústias!

antónio paiva

03 dezembro, 2008

Tédio




A vós que vos queixais a tempo-inteiro de morrer de tédio; calai-vos que a morte é o tédio por inteiro.

Bem sei; amais a desgraça como a um amor físico.

Bem sei; pedis perdão aos vossos deuses nas horas de aperto, mas não sois capazes de pedir desculpa ao vosso semelhante nas horas de culpa.

Bem sei; dos vossos deuses não conheceis os olhos, do vosso semelhante passais o tempo a desviar o olhar.

Bem sei;
antónio paiva

29 novembro, 2008

Uma mensagem, um poema e um abraço


As duas últimas semanas trouxeram-me do pior e do melhor que a vida nos pode oferecer. A vida é um caminho muitas vezes sinuoso e íngreme. Outras vezes plano e muito gratificante. Do nosso crescimento e aprendizagem ambas as situações fazem parte. Vida.
Por tudo isso tenho andado afastado de todos vós que me visitam e acarinham. Vou tentar o mais breve possível retomar a normalidade.

Deixo-vos algo que trouxe comigo da Escola Secundária de Anadia. Um poema escrito, musicado e cantado de modo brilhante, pelo jovem aluno Luís Martins.

Ser Poeta
Ser poeta é ter o dom
De compor música sem som, é sonhar
Expressar os sentimentos
Expor o que vai na alma, levitar
O meu desejo é ser poeta
Mostrar ao mundo o que sinto…e voar
Ser puro de coração,
Explorar o meu interior…e criar
Inspiração vinda do passado, reflectir sobre o presente
Sentir desejo de ir ao Céu, mostrar como é ser diferente
Com o pensamento e imaginação,
Como a imensidão do mar
Ser transparente como a água,
Invisível como o ar
Escrever poemas é criar ligação,
Entre o imaginário e o seu criador
Este é o verdadeiro poeta,
Que apesar do que sente escreve por amor

Luís Martins

13 novembro, 2008

o tempo corre

detenho-me às vezes
em líricas indecisões
o tempo corre
as folhas amarelecem caindo
as palavras amargam na boca
da viuvez da alma
por não rasgar a frágil teia que separa
o tempo corre
será de novo verão
as searas voltarão a aloirar
a alma afogueada então

a colher vermelhas cerejas carnudas de vida.

antónio paiva

08 novembro, 2008

íntimo rigor

a dor,
concedida ao homem,
pelos deuses.
alimento indispensável,
forjada em presságios,
absorvida pelo corpo.
deposito,
todas as minhas dores,
os meus prazeres,
sedentos,
de uma paisagem como tu,
insofismável refúgio.
ofereço-te,
os meus queixumes,
embrulhados em sussurros.
junto de ti,
enlouqueço,
gemo,
sofro,
embriagado,
entontecido,
abrigo-me dos espíritos da noite.
os meus braços,
são roupas,
vestindo a nudez do teu corpo.

gestos,
gotejantes de carícias.

antónio paiva

07 novembro, 2008

quase falando de mim

sinto esta emoção inebriante
de um tempo quase imóvel
recortado na silhueta das fragas
o céu opressivo e circunvagante
a olhar o mar no fundo das ravinas

por aqui vagueio secreto e tangível
ao sabor desta brisa pacificadora
no derredor desta íntima paz verde
ínfimo silêncio uterino em pequenos pedaços

neste tempo mil vezes resolvido
fico-me à conversa com o descanso
de permeio com a verdade irrecusável do que sinto
cúmplice a acácia centenária
neste meu ir e voltar a sublimar as distâncias
aguardo um regresso em que possa falar de mim


antónio paiva

06 novembro, 2008

na escrita sinto-me em férias do mundo

na escrita sinto-me em férias do mundo.
dentro dela;
não me considero obrigado a nenhum civismo.
tão-pouco;
a qualquer congeminação telúrica ou humana.

nela me debruço;
e apetece-me tudo menos ser responsável e ético.

ainda que as coisas do mundo;
se me entranhem na alma até ao cerne,
e não me deixem esquecer;
o dever de ser solidário para com quem sofre.

nela me sinto livre, aliviado e contente;
sim, porque a tristeza e eu somos a mesma pessoa.

antónio paiva

*inspirado na leitura de um texto sobre o Algarve, da autoria de Miguel Torga.

27 outubro, 2008

possível retrato de poeta

olhar de mármore
sede arqueada
alucinação do poeta
diverso inesperado antagónico
a génese do peregrino
um registo entre muros
no trilho saibroso da nossa cultura.

o verdadeiro não fala de chapéu na mão
mesmo que; por subtis razões éticas
a arte ausenta-se;
em todos os lugares onde o homem não é livre.


antónio paiva

18 outubro, 2008

Mundo depósito de erros

A sorte virou navio desertor sem cordoalha nem mastros tão-pouco bússola ou sextante e de leme quebrado é impossível o regresso a casa. Vive agarrado à ponta de uma seringa que um dia conheceu numa festa de amigos vespeiro de tentações promessas de inolvidáveis sensações que na realidade não passam de estrume. Agora todos os medos são inéditos uma vida crucificada na ânsia de obter a próxima dose que o vício não pode esperar. Viver no vermelho os espasmos físicos apoderam-se da mente dançando nas entranhas e a razão dispensa tudo quanto possa assumir forma de razoável e lúcido vida ou morte tanto faz é urgente a próxima dose a alma está seca e o vício sedento a vida é imprópria e se matar for o meio para atingir o fim ele pássaro volátil matará obedecendo ao vício.
Indiferentes os vindimadores de vidas vão fechando o cerco e alimentam-se da abundância podre gerada a partir de almas agarradas cachos em sangue que se anulam e oferecem para morrer antes do fim. Passivamente habitamos esta chuva ácida aliviando a consciência numa mera troca gratuita de seringas e no discurso encharcado de vómito liberaliza-se ou pune-se o consumo já de si uma prisão dentro ou fora delas o exercício da morte assistida no consumo assistido uma atitude vazia a conceber uma morte ironicamente higiénica.

O mundo é depósito de erros o homem a sua fonte maior
.

15 outubro, 2008

Pensamentos de algibeira e pouca monta

Faço algumas leituras desatentas, vulgo; leituras na diagonal. Por vezes não são nem mais nem menos; do que um estado latente entre uma ideia e o exercício da escrita. Estado esse que em geral, se me apresenta, como um exercício mental muito intenso e desgastante. Daí a minha necessidade de o aliviar.
Tenho de reconhecer que nem sempre foi assim. A minha abordagem à escrita tem sofrido alterações ao longo do tempo. Tempos houve, em que escrever, para mim se assemelhava ao acto de abrir uma torneira, e logo jorrava texto, fluido e despreocupado.
A isso não era por certo alheio, o facto, de nessa altura eu escrever sem pensar em algum dia vir a publicar. Vivia desse modo o gozo da escrita no estado mais puro e inocente. Se tenho saudades desse tempo? Algumas, claro que sim.
Até que um dia; por incentivos, muitos, e razões, diversas. Decidi publicar poemas e depois alguma prosa. Desde então, cada vez que escrevo, passo o tempo a protestar comigo. Ora em voz mansa. Ora em voz grave. Quantas vezes ralhetes irónicos.
Isto de transformar a minha escrita, em escrita para os outros, às vezes é quase trágico. Ainda assim, acaba por dar algum sentido, ao meu destino de pensar. Uma responsabilidade de transmitir calor, em muitas circunstâncias a tremer de frio.

Pensamentos de algibeira e pouca monta.

11 outubro, 2008

Alice está só

Alice passa o tempo a formar ilhas no seu quarto absurdo. Movimenta-se de um lado para o outro à espera do eco de existir. Parece aguardar alguém a quem perguntar as horas. Como se fosse urgente acertar o seu relógio da solidão.
Fala só. Para se certificar que existe, ouvindo o som da sua voz. Lá fora todos se acham normais, e respiram a crise financeira que invadiu o mundo. Alice suplica; por delicadeza inventem-me um tempo qualquer. Por favor; preciso de o habitar. Queria tanto falar. – Alguém me empresta as orelhas?
Os relógios habitam todos a mesma hora e Alice está só. Habita a hipnose do seu quarto absurdo. A recordar o futuro que haveria de ter. Só que o passado vergasta-lhe o presente. Se ao menos a beijassem por dentro. Pensa. Sentiria por certo a vida a poisar-lhe na cabeça como uma borboleta.
Mas não. Não a beijam por dentro e a sua vida habita um fungo. Uma náusea viva. Pesa uma tonelada obscena de tédio. A sua vida. Um velório de anedotas. Humor negro. Um labirinto de ruas pequenas com cheiro a urina e suor acre que vão dar sempre ao mesmo sítio. Um quarto absurdo onde Alice embala fantasmas.

Alice está só.

09 outubro, 2008

Um momento escrito a tinta permanente

Habita-me agora um halo de sossego, um estar isento de desperdício. A vida a correr leve, sem murmúrios inúteis. Um brando correr da alma. Aqui, agora, até a aragem é perfeita. Um momento sereno e recanto meu. É assim o perfume humilde do amanhecer.
Dentro e fora de mim tudo sinto por igual. Esta luz matinal serenamente a esculpir o mundo dos meus olhos. Sim, há momentos em que até a nuvem mais escura tem brilho. E aquela roupa branca a adejar no estendal, é a magia das memórias sem saudade, que me estão a bater à porta. Vou abrir.
O azul por cima do azul do oceano corou. Atmosfera alaranjada beijando o mar. E esta brisa de emoção que desperta em mim. Esta luz que entra dentro de mim. Como uma criança em viajante adulto acabado de chegar. É neste tempo que os relógios não sabem contar, neste espaço que não se mede, que a Vida me habita a alma.

Um momento escrito a tinta permanente.

08 outubro, 2008

Rabos-de-palha; todos temos

Passamos a vida a queixar-nos disto e daquilo. Mas depois; depois por comodidade ou cobardia, não tiramos as asas do armário. Há quem se dedique a pedir licença para existir. Uma espécie de liberdade acorrentada a palermices. O culto do medo de ter coragem.
Talvez tudo comece no gosto de mastigar azedas na infância. Que depois se prolonga no exercício de mudar prioridades. A fome cansada que se estende no sofá-da-lei-do-menor-esforço. A bebericar um chá de tenham-piedade-de-nós.
Na vida de casal os carros já são entregues com os maridos ao volante. Ainda há quem defenda que as meninas quando nascem, já deviam trazer um trem-de-cozinha. Nos restaurantes e bares, ao lado dos dísticos de proibido fumar, devia ser obrigatório a afixação de outros, com os dizeres; o homem é que paga a conta.
O melhor mesmo é esperar. Não acham? Embora não gostemos de esperar seja lá por quem for. Esperamos sempre que tudo o que desejamos aconteça; por obra e graça do Divino Espírito Santo. Espera-se o milagre que dissipe o nevoeiro do presente, e nos presenteie com um sol radioso no futuro.
Há a “ingenuidade” preguiçosa de acreditar; que a mudança de governo nos traga melhores dias. A realidade não se compadece com o desejo de chegar sem ter de ir. Lembram-se do “sonho americano”? Pois é; agora virou pesadelo para o mundo inteiro. Será que ainda acham que os sonhos não têm de ser construídos?
Podemos até encetar a existência de aranha, e esperar que tudo nos venha cair na teia. Ainda assim; convém não esquecer da necessidade de construir a teia. A rendição ao deslumbre pelo que fizemos ontem, significa que estamos a desperdiçar o precioso tempo, destinado à tarefa a executar no dia de hoje.

Rabos-de-palha; todos temos.

05 outubro, 2008

Conquistar palmo a palmo o que somos

Na cama onde não estou deitado, o meu corpo ainda dorme e eu continuo acordado. Oficialmente é domingo, e apesar de ser tarde, a lassidão do meu corpo, diz-me que é cedo ainda. Nesta lucidez torpe, a lentidão do meu pensamento, vagueia na inépcia, como se, estando, eu não estivesse aqui.
É neste bem-estar baço de inquietação estagnada, que vivo uma espécie de realidade tépida. Há uma réstia de sol que não aquece, um céu azul quase fingido. Lá longe, ao fundo do mar, há uma névoa que o vento não varre, por estar ausente.
Este olhar antigo que há muito conheço, tão antigo como a paisagem que me trás saudades. Os velhos montes, as árvores antigas e os velhos ribeiros, por onde continuo a chapinhar desde sempre, outrora despido de penumbras, e tudo eram paisagens transparentes.
Ao sabor de moer pensamentos, vou entretendo a espera de coisa nenhuma. Nem mais nem menos do que espreguiçar a existência. Em puro manifesto de direito à preguiça, que, em minha opinião, devia estar consagrado na Constituição, e na Carta dos Direitos Humanos.
Viver é um acto de intenção – ser – o pensamento é livre. A maior parte do tempo actos de impaciência da alma. Sem dúvida espelhados na face. Importante mesmo; é assumirmos a atitude de emancipação em relação ao tédio. O sermos nós sem condições.

Conquistar palmo a palmo o que somos.