07 dezembro, 2007

Prémio Nobel

São tantas as vezes que abro um livro e invariavelmente detenho-me nas mesmas páginas. Actos ilúcidos de uma lucidez que se anseia. O saber da existência de escritores que nunca escreveram uma palavra, que nunca publicarão um livro, mas que dia-a-dia registam nas páginas da vida, escritos dignos de um prémio Nobel da Literatura. Neste estruturar da existência, feito de leituras, entre frases e parágrafos inteiros. A memória devolve-me os anseios de tantos que viram os seus sonhos virar pesadelos. Quando os sonhos se desordenam, o espírito fica difícil de soerguer. É nestes momentos que desejo confundir-me com a terra, para que não me perturbem o pensamento. Sempre que me apetece desistir, verifico que somos feitos de incoerências, contradições e outras particularidades singulares. Na eminência de pronunciar o meu nome, multiplica-se o segredo das palavras. A procura de algo mais ajustado à inexistência da perfeição consome-me o sono, complica-me os dias, dificulta-me de algum modo, o comunicar com os da minha espécie.

Permaneço parte dos dias a ler, sempre presente está a consistência de algumas palavras, mesmo quando os gestos as ignoram. Identifico com naturalidade as crianças pelos olhos, reconheço o olhar dos mendigos, habitantes de todas as ruas do abandono nas cidades. O seu pedir de esmola deixa-me assustado, sinto o medo a percorrer-me o cérebro em arrepios. Nenhum medo nos prepara para outro medo. Todos eles são diferentes, isolados, violentos, devastadores. Proferimos tantas palavras desnecessárias à nossa sobrevivência, facilmente nos tornamos eternos amantes da culpa. Sempre que o sol aquece, o brilho das folhas das árvores fica mais intenso. É quando me lembro que só por existirem árvores, devíamos agradecer à vida. Observo-as, sinto haver em mim um universo de palavras adormecidas, que um dia hão-de despertar. O anseio das longas tardes de Verão, serenamente a olhar o mar, o submergir na vida interior de cada um de nós. O murmúrio de uma palavra, por alguém que luta desesperadamente pela vida, impressiona de tal modo, que se torna impossível alguma vez esquecê-la.

Assim se compõem livros sem escrever uma só palavra, ficando dispensada logo à partida toda e qualquer revisão de texto. As análises críticas e literárias, revelam-se inúteis, tal como o são sempre. O ideal era que os livros não precisassem de sair do imaginário. Não haveria registo, dizem-me. Pois que digam. Eu respondo: Aprenderíamos a ler com mais interesse nos olhares que nos são generosamente oferecidos. Escutaríamos com mais atenção aquilo que nos querem dizer, quase nunca escutamos, porque achamos que o que temos para dizer é sempre mais importante. Entre mim e nós, a beleza da palavra partilhada, é um lugar de privilégio. Atarefados e atolados em banalidades estéreis não damos conta disso. Acabamos por sucumbir na abstracção do pensamento. Debato-me na luta obscura entre a palavra e a narrativa. Nesta ânsia obstinada de me tornar perceptível. Cada vez mais me convenço, que nada posso fazer contra a espessura da existência, senão escrever. É redutor eu sei. Mas deste modo vou recolhendo instantes privilegiados do essencial da vida, em cumplicidade permanente, com escritores que nunca escreveram uma só palavra, mas que deixam a brilhante obra da sua existência.

Seremos nós apenas ecos e sombras? Viveremos as dúvidas até um sinal que nos ilumine a razão?

Embora eu não tenha a certeza se a vida é isto ou outra coisa qualquer, vou registando pormenores, as coisas mínimas a que poucos dão atenção. Na verdade as pessoas são por natureza distraídas, de si e dos outros, sobretudo naquilo que as revela.

antónio paiva

Bom fim-de-semana a todos.

11 comentários:

Maria disse...

Creio que este post foi mesmo "arrancado de ti"...
Adorei, António, e dá muito que pensar...

Bom fim-de-semana
Beijinhos

ana disse...

É a vida vista pelos olhos da poesia e do coração, mesmo quando não fazes versos.
É a vida vista por quem se importa.
Um abraço muito amigo.

un dress disse...

fizeste-me lembrar gorki que fala dum poeta que morreu sem escrever uma única palavra...

como se fosse preciso!!...

gestações ecos e sombra.

pouco mais.

mas também ninguém disse que tinha que ser mais...


:) abraÇo.beijO ~

rascunhos disse...

Realmente assim é amigo... devíamos olhar e ver, escutar e entender melhor o que nos rodeia.

Um boa semana e um beijo

foryou disse...

Eh lah... grande inspiração :)
Até me fez saltar um sorriso :) grandeeee :) e sabes porquê, não sabes?! :)

Papoila disse...

Pois é nesta época ainda andamos todos muito mais distraídos! Fazes muito bem em anotares os pormenores pois, só na junção dele se faz o todo de cada um que, sendo poeta ou não, tem direito à poesia da vida.

Beijocas e Bom Natal
BF

Claudinha disse...

É por ser assim, querido amigo, que o denominamos Poeta... Manejas as palavras com maestria porque sente-as em cada célula e sabe transmitir sentimentos por meio delas.
Beijo!

kurika disse...

Não acho que sejas redutor ao escrever o mundo que sentes...em nada!

Deixo o meu beijinho de boa noite

Já tinha saudades de te vir "ver"

Perdão pela ausência

ana disse...

Passo de novo, à procura da tua escrita.
E deixo-te mais um abraço, com aquela estima que sabes que tenho por ti.

soslayo disse...

António Paiva:

No melhor pano cai a nódoa! Assim diziam os nossos antepassados por que ninguém está livre e/ou impuno em não observar tais evidências da vida que por vezes nem damos por elas... É, digamos um absorver do quotidiano que se apresenta muito igual e sem novidades... E cada vez as coisas pioram, e nós, observamos mas não fazemos nada, porque somos minúsculos perante tanta aberração humana. A falta de sentimentos humanos!? Li atentamente e vejo que com muita propriedade de escrita fazes-me sentir tudo isso. Os teus registos são os meus registos! Com uma diferença é que eu não os sei exprimir tão bem como tu Poeta e Amigo.

PS: Falhei ao lançamento! Não interessa explicações mas duma coisa tenho a certeza hei-de lê-lo assim que o adquire. Um abraço.

Um Momento disse...

Perdi-me nas tuas palavras...
Beijo grande... no teu coração

(*)