14 janeiro, 2008

Revisitando-me

Fui gerado, nascido e cresci no campo, calcorreei atalhos sinuosos, por entre pinheiros e matagais. Perfumei-me nas pastagens floridas, escondi-me nos milheirais. Pastoreei ovelhas e cabras, espantei pardais. Escutei encantado o canto das rolas. Conheço o cheiro do estrume e da hortelã, o odor da terra arada. Chapinhei em riachos e ribeiras, mergulhei no rio, sei de cor o coaxar das rãs nos charcos. Ouvi melros, cotovias e rouxinóis. Procurei ninhos, apanhei pássaros e atirei pedras ao vento. Viajo no andar compassado e firme das juntas de bois lavrando a terra. Semeei, plantei e colhi. Sinto ainda a dor do frio nos dedos das mãos em Dezembro, quando apanhava azeitona por entre as ervas cobertas de geada, doíam tanto até deixar de os sentir. Mas o cheiro do azeite nos lagares compensava todas as dores, o sabor no prato era a melhor recompensa. Adormeci vezes sem fim ao calor do lume, cabeça apoiada nos joelhos e pensamento deitado nos sonhos.
Desfolhei massarocas ao luar, beijei moças afogueadas ao encontrar o milho rei. Colhi maçãs e roubei figos de mel a pingar. Das uvas sei todos os sabores, vindimei e pisei uvas, corei ao cheiro do mosto, provei o vinho. Retenho o perfume das acácias, do rosmaninho na Páscoa e do alecrim nas colheitas do mel. Laranjas e tangerinas perfumavam-me as mãos. Noites a fio acotovelado a sonhar e a contar as estrelas, escutando o cantar dos grilos. Na memória o chiar do balde na picota, onde a força dos braços retirava água dos poços para regar as hortas.
O cantar das moças no lavadouro enquanto estendiam a roupa a corar no relvado e nos silvados. O barulho ronceiro dos carros de bois carregados de mato para os currais do gado. A caminho de montes e vales borboletas estonteadas exibiam-me os seus bailados. No meu álbum de memórias, guardo a fotografia do rosto pintado de preto em lagares de amoras silvestres. Nos bailaricos, nos arraiais das festas populares colei o meu rosto noutros rostos e me descobri homem, o estremecer do corpo, o estalar do coração, no primeiro beijo às escondidas, o toque de jovens lábios carnudos, perfumados de inocência, mas ardentes na descoberta do desejo. Saltei fogueiras no São João, acendi o madeiro no Natal.
Nas quentes madrugadas de Agosto o regressava a casa voando de pés no chão e cabeça no ar, sorriso nos lábios. Inquieto, irrequieto, criativo, brinquei, corri, joguei à bola, ao pião, ao berlinde, à malha. Conquistei troféus nas barracas de tiro, bebi pirolitos e namorisquei. Sou um eterno peregrino da liberdade, das sensações e das coisas belas, mesmo que as sombras teimem em me visitar. Por isso, sento-me, oiço música, leio, pego nas memórias e nas palavras e revisito-me. Aquieto-me e descanso.

17 comentários:

Vanda Paz disse...

é tão bom saber que foste feliz...
um texto magnifíco!

beijos

Maria disse...

Viveste. Vives!
Excelente texto....

Beijos, com saudade....

foryou disse...

Revisito-me... :) gostei :) fez-me lembrar algo...

beijoooooooooooooooooooooooooooo

Luis Monteiro disse...

Belo texto. Parabéns!
Recordar também é viver...

Vera disse...

E recordar é viver!

Beijo

claudia disse...

Que bom!

;)

Oliver Pickwick disse...

Muito bom, na verdade, excelente. Uma bela crônica repleta de poesia, reminiscências saudáveis, uma vida, enfim. Parabéns por este brilhante trabalho.
Abraços!

ana disse...

Que bom foi ter passado por aqui - visito e revisito-te sempre com um imenso prazer. Reencontro o António que conheço (um pouquinho) na visão clara, consciente e bonita que tens da vida e na beleza das palavras com que nos mostras essa tua visão. Abraço.

un dress disse...

tudo o que

está escrito em ti

muito além das palavras. :)

palavras que aqui são

a mais viva

poesia.

pontes de vida.



BEIJO

Claudinha disse...

Lembrou-me o Mestre: "Confesso que Vivi"! Beijos!

Um Momento disse...

Belo texto meu Amigo!!

Deixo um beijo e o desejo de uma linda semana:)))

(*)

José Miguel Gomes disse...

Como te compreendo... Continuo a ser do campo, embora teimem em construir prédios onde antes eram campos de cultivo... Mas o perfume das tardes de Agosto, ninguém mo tira...

Fica bem,
Miguel

ana disse...

À procura de mais quadros vivos, ou de um outro ângulo do teu auto-retrato, tornei a passar...
E hei-de continuar a vir, porque não se pode perder o que deste modo sabes contar, dizer, pensar, "pintar". Vem de dentro da alma, bem se nota!

kurika disse...

Oh que saudades dos "pirolitos"...
Bem laranginhas, não eram?

Um passado cheio de felicidade, que bom!!!

Bjinhos

ana disse...

"aquieto-me e descanso". Estás no teu pleno direito. Mas quando prolongas a ausência, sente-se-te a falta. Eu sinto.
Um abraço.

Papoila disse...

Revivi cada som, cada cheiro (as acácias hummmmm ...mimosas na minha terra), cada sabor cada cena que pintas nestas palavras.

também me revisitei nesta tua escrita.

Beijinhos
BF

candida disse...

muito bonito. tb eu tive muitas dessas sensações só que não as escreveria tão bem.


chuaquinhosssssssssssssssss