13 julho, 2013

Cava bem fundo, Jorge!

Cava bem fundo, Jorge! Cava bem fundo! Dizia-me a minha mãe lá mais adiante vergada ao peso da enxada olhando-me por baixo do braço como se estivesse a enrolar o corpo no corpo. E eu cá mais atrás, arfava a bom arfar, o cabo da enxada era mais alto do que eu e mais grosso que os meus braços, e eu a ver se conseguia cavar bem fundo, bem fundo, a ver se enterrava o meu desespero, por não conseguir cavar tão fundo como a minha mãe queria, (....).
Faz os regos direitos, Jorge! Faz os regos direitos! Era a minha mãe outra vez, (...).
Mãe, o país já não está como o deixaste, mãe! O país já não está como o deixaste! (....).
Eles cavaram bem fundo, mãe! Cavaram mesmo muito fundo! Mas os regos estão todos tortos, mãe! Muito tortos, mãe! (...).
 
[excerto de ...]

2 comentários:

Ana disse...

Cavaram fundo ... nas vidas dos outros, no direito à esperança.

Joana Bernardo disse...

isso é verdade