16 outubro, 2006

no passado sábado foi assim

Fotografia de Rui Silva
Os meus sinceros agradecimentos a todos quantos me honraram, com a sua presença.

2 comentários:

Joana disse...

:( TAMBÉM QUERO!!!!

Quando vens ao Porto Amigo!?

Beijinho grande...!

daleitura disse...

Onda e Leitura, RDP Madeira, Antena 1
de 9 a 15 de Outubro de 2006

juntando as letras, de António Paiva

Há alguns anos, discutia-se poesia nos bares do Funchal. Falava-se dos poetas malditos e dos surrealistas, principalmente. O livro de José Agostinho Baptista Jeremias, o Louco também fala dessa cidade e desses lugares. Recordamos então um amigo, que afirmou que só quem ainda não encontrara qualquer coisa parecida com a felicidade se poderia dedicar a escrever poesia. Pasmámos, porque ele ainda era jovem e até já publicara alguns poemas de qualidade. Tão jovem e já tão assim satisfeito e tão sentado? E lembrámo-nos de um dístico, quase epígrafe: “E se fôssemos felizes, que desejaríamos então?”
Estes pensamentos são-nos inspirados pela leitura de um livro de poesia intitulado juntando letras, de António Paiva, que achou por bem lançar a sua obra na livraria que apoia a “Onda de leitura” onde nos banhamos. Como disse alguém a quem mostrámos o livro, e que não teve muito tempo para o consultar, esta escrita tem o seu quê de “naif”, que entendemos como um misto de ingenuidade e singeleza, e que está de acordo com a tonalidade dos poemas, como se verifica logo no início da obra: “queria dizer-te coisas, contar-te segredos, não sabia como o fazer, então fechei-me aqui sozinho, juntando letra atrás de letra, pensando que me escutavas…”. Este livro é sobretudo comunicação - de alguém que procura abrir portas, as suas e as de quem quer tocar com o seu amor. Essa comunicação é, por isso, um processo de conhecimento de si e dos outros, como acontece com as letras, ou mais propriamente, com a linguagem. O conhecimento do Outro e o auto-conhecimento vai-se realizando à medida em que os seres humanos vão aprendendo a linguagem verbal. Com as palavras, o autor busca o amor, procura a pessoa amada na tentativa de se encontrar consigo próprio. Exemplifiquemos com o poema “alma agreste”:
empresta-me os teus olhos
quero ver-me
empresta-me os teus ouvidos
quero escutar-me
empresta-me o teu coração
quero sentir-me
empresta-me a tua dor
quero o castigo
fala-me de mim sem rodeios
tu sabes
vivo dentro de mim punho cerrado
ostra gélida de temor
toca-me no ponto incerto
alma agreste e errante
algures na madrugada mão aberta

No poema intitulado “da poesia”, o poeta reflecte sobre a sua própria arte, dizendo que “escrever poesia não é ser poeta/ juntar sentimentos é aprender/ juntar letras é escrever a alma…”. Define, enfim, a sua poesia como uma expressão de sentimentos, posicionando-se numa perspectiva quase romântica, ou pelo menos pré-modernista, como dando razão ao nosso amigo que defendia a ideia de que só se dava a escrever poesia quem não se sentia satisfeito e se dava ao culto das lamentações ou à demanda dos sonhos.
Mas é aqui que nos encontramos com António Paiva: julgamos que a grandeza do homem está na busca permanente, na insubmissão ao fado, na procura do mais-além. O território do homem livre, tal como o do poeta, é a liberdade. Por isso há aqueles que procuram abrir as portas, as dos outros e as suas, mesmo que não sejam poetas, ou seja:
pausa

deixem-me ainda que ingenuamente
acreditar na utopia
agora que tenho tempo.
Depois podem fazer ruído
recuperei algum equilíbrio
é só um instante já vou abrir