20 maio, 2008

Vigílias

A olhar o mundo do mesmo modo que o velho olha o relógio; falta-lhe tempo e sobra-lhe morte. Nem sempre a noite é semeada de estrelas, tão-pouco o luar surge para entornar a maciez da sua luz sobre todas as coisas. Às vezes a vida põe-nos a mão no ombro e dá-nos um sorriso amargo. Uns comem conversas aqui e ali, outros comem fome e choro um pouco por toda a parte. Os braços somem o tempo a sacudir canseiras, ainda assim não falta quem se dedique a fainas e fainas de ensejo, é bom que assim seja, afinal de contas a existência é uma jorna onde só com muito afinco se colhe a vida. Verdade que é uma praga de canseiras, mas não é menos verdade que a noite poisa sempre nas árvores, nunca lhes escutei um só queixume, suportam-na sempre até o dia nascer. É verdade que podemos talhar o ócio a tempo inteiro, mas depois falta-nos tempo para o vestir, o passo seguinte é inevitavelmente a frustração.
De vez em quando escuto uma ou outra conversa, uns dizem que o dinheiro permite toda a liberdade do mundo, outros dizem que o dinheiro impede o mundo de ser livre. Eu se pudesse fazia-lhes a todos um depósito milionário de utopia. Tomemos como exemplo o Inverno, tanta riqueza numa estação que passamos o tempo a olhar como pobre e despida. Será assim tanta utopia? Ter na vida a Primavera a verdejar, o Verão da cigarra a cantar, o Outono da formiga a guardar, para no Inverno aquecer o frio sem dor. Não! Não me parece utopia, podemos guardar em nós a coisas boas e belas da vida o ano inteiro e, por que não, o cheiro das rosas em Janeiro.
Teceremos sempre razões para que seja desta e daquela ou de outra forma, é da nossa condição parar perplexos nas encruzilhadas mesmo que saibamos o caminho. O melhor mesmo é não ficarmos parados, o caminho levar-nos-á sempre a algum lugar. Não importa o tempo ou a distância até lá. Quando há bom tempo respiramos as sinfonias do azul e experimentamos a rouquidão dos vermelhos. Há quem diga que isso é uma consciente e estranha lucidez de nós, que só nos apetece fechar os olhos e ficar a sorrir para a eternidade, debruçando a alma à janela retendo nela toda a paisagem, aí sentimo-nos felizes por descobrirmos que ainda sabemos sorrir. O melhor mesmo é revisitar todas as sensações, antes que tudo se perca por entre os dedos, acima de tudo acreditar e nada temer. Ainda há quem não saiba que os amantes se encontram secretamente junto à rosa-dos-ventos, escapando assim à tirania de olhares indiscretos. Se eu mandasse, as naus seriam corpos de mulher, que levariam os homens a todas as latitudes e longitudes do Universo. Quão suaves e ternos seriam os movimentos das marés, enquanto beijavam o sorriso dos litorais à sua passagem, pontificando as emoções. Certamente que os sentidos seriam muito mais do que cinco.
Seria suficiente um olhar para que os corações rissem de alegria, manifestando-se desse modo enquanto a felicidade se passeava nos braços, nos nossos braços, o abraço. Não é possível ignorar a beleza das gaivotas entusiasmadas a planar em voos rasantes, poisando sobre as águas calmas soltando os seus gritos de alegria. Ao largo as naus a deslizar como crianças divertidas, a iluminar-nos os olhares, imagem de opulenta doçura em permanente vai e vem sobre as águas.


- Se assim fosse, seríamos sábios?

9 comentários:

Ana disse...

Seríamos sábios?
Seríamos felizes?
A sabedoria e a felicidade são objectivos. Avistamo-los, por instantes breves, mas nunca se alcançam em definitivo. E é isso que nos move, que nos incentiva, essas luzes tão inebriantes que chamam por nós, sempre lá mais adiante. Ainda bem que temos a capacidade de acreditar, desejar e seguir caminho!

Um abraço.

Vanda Paz disse...

Todos os dias a tua escrita fica mais completa, mais rica. Li e reli este texto e pensando bem só podia ser teu.
Parabéns!

Beijos simples como, o cair da noite.

mundo azul disse...

Um texto que dá gosto de ler! Deslizei em suas palavras, parabéns...
Beijos e muita luz!

Nilson Barcelli disse...

A felicidade, tal como a riqueza e demais estados do corpo, da alma e das coisas, são conceitos relativos.
Arrisco, por isso, que se tudo fosse cor-de-rosa, nem saberíamos o que era a felicidade, a sabedoria, etc., porque não haveria infelizes nem burros para servirem de termo de comparação...
Muito do saber da humanidade tem origem na maldade. Porque para fazer mal somos mais criativos... exemplo da bomba atómica...
Sabes, o tema, parecendo tão simples, é demasiado complexo para a minha cabeça a esta hora da noite...

O texto é excelente, como é óbvio.

Abraço.

© Piedade Araújo Sol disse...

muito bem escrito.

eu diria mais!

escrito com sabedoria.

beij

Lyra disse...

Viajo no tempo e no espaço, sentindo a emoção de cada palavra aqui lida e bebendo detalhadamente as lições de vida que essa viagem me dá.

Beijinhos e até breve.

;O)

segurademim disse...

... somos sábios

por exemplo, se tu o não fosses como saberias escrever este texto?

e outros que nos dão momentos de felicidade e prazer?
sim somos sábios, trabalhamos em rede, cada um à sua maneira ...


[ ah!! e os corpos de mulher são naus ... ]

un dress disse...

campo de palavras

al o ngado poema de ti


~






beijO

Papoila disse...

Neste teu belíssimo texto estive com os meus 5 sentidos em actividade e, imaginei quais os outros possíveis!
E não ...não é utopia ...as rosas de Janeiro podem ter o mais doce dos perfumes.


Beijinhos
BF