18 outubro, 2008

Mundo depósito de erros

A sorte virou navio desertor sem cordoalha nem mastros tão-pouco bússola ou sextante e de leme quebrado é impossível o regresso a casa. Vive agarrado à ponta de uma seringa que um dia conheceu numa festa de amigos vespeiro de tentações promessas de inolvidáveis sensações que na realidade não passam de estrume. Agora todos os medos são inéditos uma vida crucificada na ânsia de obter a próxima dose que o vício não pode esperar. Viver no vermelho os espasmos físicos apoderam-se da mente dançando nas entranhas e a razão dispensa tudo quanto possa assumir forma de razoável e lúcido vida ou morte tanto faz é urgente a próxima dose a alma está seca e o vício sedento a vida é imprópria e se matar for o meio para atingir o fim ele pássaro volátil matará obedecendo ao vício.
Indiferentes os vindimadores de vidas vão fechando o cerco e alimentam-se da abundância podre gerada a partir de almas agarradas cachos em sangue que se anulam e oferecem para morrer antes do fim. Passivamente habitamos esta chuva ácida aliviando a consciência numa mera troca gratuita de seringas e no discurso encharcado de vómito liberaliza-se ou pune-se o consumo já de si uma prisão dentro ou fora delas o exercício da morte assistida no consumo assistido uma atitude vazia a conceber uma morte ironicamente higiénica.

O mundo é depósito de erros o homem a sua fonte maior
.

5 comentários:

SoNosCredita disse...

só para deixar um "olá"!

:)

Ana disse...

António, meu querido Amigo,

Tu e as tuas pedradas no charco.
Nunca te canses de fazer ondas.

Um abraço.

kurika disse...

Já há muito que não "ouvia" a palavra ESTRUME...embora viva no meio d'ele...

É António...uma dureza de vida!!!

Bjinho

Bom fim de semana

Ana disse...

"O mundo é depósito de erros"

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... e de encantos, e de esperanças - estive com a minha Joana!

Um abraço.

Papoila disse...

Forte este teu texto.Fico assim meio que arrepiadas com as imagens que criei mentalmente enquanto o lia. Muito real

Beijo
BF