01 abril, 2006

Apenas de passagem


“Marvila, trás da rua não se pode lá morar…
….De dia tudo são velhos de noite cães a ladrar.”
Extraído do romance FANGA Alves Redol


Pode parecer exagerado, mas estamos convencidos que não, o nosso país caminha a passos largos para o envelhecimento, a ciência encarrega-se de nos tornar velhos por mais tempo, a legislação prolonga-nos o contrato de trabalho, as ruas e jardins outrora acordadas com os risos de crianças, estão agora ocupados com o catarro e rabugice dos mais velhos, velhos que noutros tempos se entretinham a passear as “péstinhas”, aproveitando ao mesmo tempo para recordar a sua meninice, agora já nem se recordam que o foram, a ausência é um estado de alma que nos vai tomando conta.
Marca-se o ritmo pela cadencia do poder ter, do poder ser, de dia corre-se ao que der, à noite recolhe-se ao que vier, as telenovelas cuidam do resto, os olhos fecham-se a cabeça pesa, a almofada protege, nada a declarar, a lua brilha às vezes não vá a gente esquecer que ela existe.
Pela manhã prepara-se o rosto, escorre a água no chuveiro, deslizam cremes, batons e pinturas, veste-se o trapo da moda, calça-se o sapato da roda, não queremos fazer má figura, entra o café o cigarro, pressiona-se a buzina do carro, passam-se os dedos no cabelo olhando o retrovisor, não vá um pelo inquieto, descompor o boneco.
Se o destino assim quis que houvesse algum reguila, passa-se pelo infantário, estaciona-se em segunda fila, larga-se a encomendinha, está cumprida uma etapa, buzinas, motores, pessoas, numa agitação frenética, lojas, escritórios, fábricas, montras, balcões, secretárias, computadores, papeis, pessoas e mais pessoas, acentuam-nos o desespero, respirar é mais difícil, a vontade é ficar velho pede-se o fim do dia, puro engano encurtamos o caminho que nos leva à agonia, pois ainda nem é meio-dia, almoço, sandes, sopas, pasteis, fast food, come em pé, torcido acotovelado, olha a montra o penteado, olha aquela e aquele, rápido muito rápido, alarga-se o passo apressado, damos connosco de novo no sitio de onde saímos à bocado.
Retoma-se a tarefa de mais ou menos rotina, reuniões, clientes, prazos para cumprir, sublinham-se os objectivos, a almejada promoção, o pedido de aumento ao patrão, não contempla distracções, chega depressa o Verão, abençoada estação, há que sofrer por ela, deita-se o olho à barriguinha, dê por onde der há que dar cabo dela, ginásio, sauna, massagens e dietas, vamos lá tem de ser, dê lá por onde der.
E não é que anoiteceu, regresso, carros, buzinas, motores, pessoas, barcos, autocarros, metro, por favor deixem passar temos pressa, corpo dorido massacrado, a cabeça pesa de novo, as pálpebras querem cerrar, vá lá mais um esforço, não tarda vais-te deitar, afinal de contas quem se lembra da idade que tínhamos à dias, pois ninguém se lembra afinal, na nossa terra no nosso país, cada vez há mais…. ruas onde não se pode lá morar, de dia tudo são velhos de noite cães a ladrar.

O nosso muito obrigado e bom fim-de-semana.

10 comentários:

sonia r. disse...

Nem sempre é asssim. As palavras nunca são a mais. Boa noite Chuvamiuda.

Bjo.

Agata disse...

O envelhecer tras consigo os frutos das árvores plantadas ao longo da vida...uns doces, outros, nem tanto...mas, na maioria das vezes, a escolha da semente foi nossa...Há também o que não plantounada...bju

sonia r. disse...

É assim e não "asssim". Obrigada.

Caiê disse...

Acontece que a medicina, na ânsia de nos prolongar a vida, não a tornou mais confortável...
As pessoas morrem tarde, mas, quantas vezes, ligadas a máquinas, respirando e comendo por tubinhos.
Mas estão vivos e os médicos congratulam-se, porque conseguiram o seu objectivo. Quanto a mim, isso é horrível. Antes morrer sem dor. Esse devia ser o verdadeiro propósito da medicina: um propósito humanista.

Caiê disse...

Esqueci-me da situação dos que moram em lares infinitamente... Há lá coisa mais horrível? Quase sem se conhecerem e levando porrada das assistentes? (olhem que já vi muito caso, com os meus olhinhos!!)
Antes morrer jovem, safa!

alfazema disse...

Como retratas tão bem a vida de hoje! Tens razão em tudo quanto dizes. Mas já reparaste que as crianças não brincam como há uns anos atrás? À macaca, ao ringue, ao apanha, aos reis e rainhas...
Agora vêem televisão, sentados, comem doces, jogam playstations, sentados,comem doces, computador, sentados, comem doces...
Daqui a uns anos , anafados e sem força, não há medicina que lhes estique a vida.
E a sua alimentação? Pizzas, hamburguers, batatas fritas...tudo saudável, além daquela água gaseificada castanha que bebem a toda a hora.
Um beijo

Elipse disse...

Texto magnífico na sua crueza...
gostei e deixo um beijo calmo, para compensar.

segurademim disse...

... lá do alto onde vês o nascer do sol, não terás noites tão desassossegadas assim!?

gostei da parte do duche e dos cremes...

beijo ;)

LM disse...

Magistral,Chuva!!

dreams disse...

são escravos do tempo, da mda, e deixaram morrer a criança que neles morava...

um beijo doce *
“·.¸Dreams¸.·”