07 abril, 2012

excerto de romance em construção


… – Não sabemos de uma palavra, não sabemos de uma ideia, que nos recomponha e nos recomponha a vida – não temos e não sabemos. Mas o que é uma palavra?, mas o que é uma ideia? mas o que é recompor a vida? – mas o que é a vida? Silêncio. E eu desligado e dissimulado nas sombras do escritório. A casa deserta. Eu abismado perante a ausência que nos ocupa a casa toda; e nós somos como a nossa casa – apenas e só habitados pela ausência – ou a casa não fosse a nossa.

[Breve virá a noite]

     Aqui estou enrodilhado no que me atormenta – e eu que em tempos sabia o que era audácia – e agora este inverno de futuro; e agora?

19 fevereiro, 2012

Lançamento da Antologia de Poesia Contemporânea "Entre o Sono e o Sonho" Volume III



No próximo dia 25 de Fevereiro às 15:30h, será efectuado o Lançamento da Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho” Volume III. A ter lugar no Zeno Longue – Casino Estoril.

Da qual tenho o privilégio de fazer parte.

Edição da Chiado Editora
Selecção e organização de Gonçalo Nuno Martins

31 janeiro, 2012

ainda a dizer-me, sei lá...


em pousio - acometido de um surto de pardo sossego; já que escrever não é tarefa, ler não é ocupação, inteligência é coisa que a ignorância não suporta. quero lá saber; até porque cultura não é ministério é secretaria. antes de sair vou ousar - coloco um broche alaranjado na lapela - rosa já não é moda.

30 dezembro, 2011

Mensagem

DESEJO A TODAS AS MINHAS LEITORAS E LEITORES, AMIGAS E AMIGOS UM GENEROSO ANO DE 2012!

Bem sei que as coisas não serão fáceis, mas acredito que é possível.

Um abraço.

22 dezembro, 2011

6º aniversário desta pastagem

E, de facto assim é; seis anos passaram desde a primeira semente. E, de facto assim é; poucos, muito poucos, gostam de nós e são nossos amigos, sem mais. Muitos, quase todos, gostam de nós apenas por interesse, seja ele de que espécie for. Eram tantos(as) os/as amigos(as) desinteressados(as) que eu cheguei a estar convecido que tinha, mas afinal nunca tive.


Um abraço e passem bem, que por aqui também se procura passar o melhor possível.

21 novembro, 2011

já era para ter dito, mas digo agora

hoje nem as palavras conseguem sossegar-me; a tempestade da alma não se apaga. há um grito que me queima a língua. estou à minha espera para fugir. se conseguir adormecer vou pensar em mim. prometo.

19 novembro, 2011

de novo a dizer-me


poucos foram os dias em que não te amei verdadeiramente – vida. é por isso que quero morrer sem presas – vida. estou a construir uma quilha de barco no meu peito; para contigo navegar eternamente no mar-alto – vida.

15 novembro, 2011

continuo com esta necessidade de dizer


se pinassem menos podíamos comer melhor; assim pensava o filho mais velho de uma família numerosa – todos sentados à mesa entretidos no jogo de pescar pequenos farrapos de couve que nadavam no prato de caldo aguado – a irmã do meio celebra contratos de dez minutos, um quarto de hora ou meia hora para poder ir à pastelaria adocicar a existência. e chove; chove copiosamente, não há lugar onde mais chova que na pobreza. e chove; chove copiosamente, perdoem-me o que por vergonha omito, quer na dureza, quer na linguagem, porque na verdade, entre outras coisas, o que eu queria mesmo escrever, era: se fodessem menos…, era; era tanta coisa, lá isso era…

12 novembro, 2011

era-me necessário dizer

sou uma criança que envelheceu, apesar disso; continuo a ser uma criança, continuo a gostar de amoras, digo-o tantas vezes, que é com alguma mágoa que vos dou conta da tristeza sentida, por nunca terdes dado conta que vos disse o que disse tantas vezes. as pessoas são como os telhados: quando falamos estão sempre lá em cima e sonâmbulas. o que me vale são as outras crianças que me dizem: és um violino sonhando constantemente com um mundo diferente.

16 outubro, 2011

a depressão de todas as depressões

sob o inexplicável estio há uma chuva estranha e ácida que cai sobre a gente humilhada; as cidades oferecem o poder ao primeiro que as fizer cantar. a esperança já não é suficiente; aproxima-se o momento em que tudo vai implodir sob a ameaça de decisões impossíveis de resultar.

29 julho, 2011

excerto - 2

às vezes as grandes cidades são dolorosas e íngremes; sendo obscenamente sufocantes, o ar é tão escasso que os que nelas vivem fenecem sob o desígnio de um sorriso nebuloso. as pétalas não são pétalas; são páginas e páginas de necrologia ao fim-de-semana, sem glória, ao fim-de-tudo, e os automóveis decepam as lágrimas.

26 julho, 2011

excerto - 1

ando a riscar ideias mentalmente, e por acaso a semana passada comi amoras silvestres, eram bem boas. por aqui o sino da torre continua a levar pancadinhas do badalo de quinze em quinze minutos. o ponteiro gordo do relógio muda de hora em hora, e o palerma do ponteiro comprido salta de minuto em minuto. às meias horas o badalar aumenta, à hora certa é um desassossego.

08 julho, 2011

O meu novo blogue

Siga o link Oficinas de Escrita Criativa, leia e diga o que lhe aprouver dizer, se lhe aprouver dizer alguma coisa, claro está, e, já agora, se não for pedir demasiado, por favor divulgue.

Grato.

07 julho, 2011

Oficinas de Escrita Criativa - Lisboa

Oficinas de Escrita Criativa, nos dias 16 e 23 de Julho, no Campo Grande, nº 56, Sala Dublim, em Lisboa.

Público alvo: jovens e adultos a partir dos 14 anos de idade.

Para mais informações e inscrições contacte-me através do email: antoniopaiva21@sapo.pt

agiotagem é crime!!!

há coisas tais, que me impedem de passar ao lado; de ficar à margem e, não é necessário ser especialista na matéria, para saber avaliar que aquilo que os tipos da moody´s estão a fazer a Portugal, é agiotagem pura e dura! ora, que eu saiba, e julgo saber bem, agiotagem é crime!!! por isso: punição urgente e exemplar aos AGIOTAS!!!
lembro-me bem, de ainda há bem pouco tempo o nosso PR, dizer com elevada parcimónia e "elevado sentido de estado(?)": que não podíamos maltratar os mercados e que os devíamos respeitar; pelo vistos agora já não pensa da mesma maneira, é caso para dizer: TARDE PIASTE!!!

02 julho, 2011

Oficinas de Escrita Criativa - Seixal

Inscrições abertas para Oficinas de Escrita Criativa, no Seixal, destinadas a crianças e jovens a partir dos 9 anos de idade, a terem lugar na Activ@Mente, Espaço de Educação e Cultura.

Para mais informações e inscrições visite o site http://www.activamente.pt/ ou entre em contacto através do seguinte endereço de correio electrónico: activamente.educa@gmail.com

Este Verão proporcione aos seus filhos a possibilidade de descobrirem e desenvolverem as suas capacidades criativas permitindo-lhes que naveguem no maravilhoso mundo das palavras e da escrita.

30 junho, 2011

Oficinas de Escrita Criativa - Lisboa

Oficinas de Escrita Criativa, nos dias 9, 16 e 23 de Julho, no Campo Grande, nº 56, Sala Dublim, em Lisboa.

Público alvo: jovens e adultos a partir dos 14 anos de idade.

Contacto para mais informações e inscrições: antoniopaiva21@sapo.pt

02 junho, 2011

01 junho, 2011

é pacote!!!, não é, pack!!!

ainda hoje, muitas pessoas e empresas, nos aliciam com o pacote, um pacote disto, um pacote daquilo, um pacote assim, um pacote assado, um pacote mais bem composto, ou um pacote mais escanzelado, enfim; uns e outros oferecem o pacote que têm, para oferecer. no tempo da minha avó Maria e da minha mãezinha Lurdes, na mercearia também era tudo aviado no pacote, um pacote de 100 gramas de colorau, um pacote de 250 gramas de café, um pacote de 500 gramas de açúcar amarelo (o mais barato à época). e, o pacote era feito ali na nossa frente, em papel pardo, ou mais fino quando a mercadoria o justificava, mas a verdade é que o pacote era feito destreza e mestria à frente do cliente e aviado de imediato.

no entanto, hoje por cá, com a tendência desmedida, dos tão sábios, para abastardar a língua portuguesa, há até quem afirme que a "lululizaram", vendendo a pátria e a honra ao desbarato; querem e exigem que compremos ao pack, ele é o pack de iogurtes, o pack de meias, o pack de cuecas, ora aprovam pack, ora chumbam pack, etc...etc... e, o pior de tudo, é que o pack disto ou daquilo, não é feito à nossa frente, é tudo feitinho com muita arte e engenho, nas nossas costas.

por isso; aos de pacote, recomendo que cada um vigie e guarde o seu, o melhor que souber e puder, e que o continuem a usar e a fazer com a classe e a dignidade que o pacote merece. aos de pack, quero lá saber como são aviados e servidos; aguentem-se!

31 maio, 2011

Lançamento do livro "À Conversa Com Alves Redol & As Sequelas" na Livraria Leya na Barata - Lisboa

Da esquerda para a direita; o jornalista José Eduardo Meira da Cunha, a escritora Cristina Carvalho, eu, e o editor Pedro Baptista.
Dia 28 de Maio, uma tarde memorável!
Obrigado.

24 maio, 2011

Apresentação do Livro "À Conversa Com Alves Redol & As Sequelas" - Coimbra


(clicar na imagem para ampliar)

...

o teu corpo é um lago


onde mergulho até perder os sentidos


despindo a água por inteiro, morro na tua sede.

05 maio, 2011

Lançamento do livro "À Conversa Com Alves Redol & As Sequelas"


(clicar na imagem para ampliar)

Saiba mais sobre o autor e os seus livros em www.antoniopaiva.net


28 abril, 2011

À Conversa Com Alves Redol & As Sequelas


(clicar na imagem para ampliar)

Amigas e amigos, leitoras e leitores, o meu novo livro vem a caminho, e já tem data e local de lançamento:
Sábado dia 28 de Maio, às 16:30, na Livraria Leya Barata, Avenida de Roma, em Lisboa.

Mais adiante darei mais pormenores.
Um abraço e até já!


25 abril, 2011

a propósito de liberdade

a liberdade não é um direito, é um dever!

02 abril, 2011

Escrita Criativa, com António Paiva


Clicar na imagem para ampliar.

21 março, 2011

Primavera

também eu nasci com ela e acabo por renascer em todas elas.

11 março, 2011

mensagem

a percorrer os caminhos-de-dentro...

fiquem bem e até um dia destes!

11 fevereiro, 2011

o pardal é um poema

o pardal é um poema;

tanta pena, tanta pena;

tantos ais, tantos ais;

escorrem lancinantes dos beirais;

temos pena, tanta pena, tanta pena;

a idosa estava morta atrás da porta;

não se abriu a porta por não cheirar mal.


o pardal é um poema;

nunca o seria não fosse tanta pena;

mas de facto o pardal é no seu todo um poema;

porque a idosa devia ter perecido de porta aberta;

e mais!, a idosa depois de morta foi perniciosa;

não pagou à “sociedade” o devido tributo.


vai daí o “estado” impoluto;

processou-a generosamente sem abrir a porta;

vendeu por tuta-e-meia o seu “jazigo”;

porque mesmo morta, devia ter pago e;

antes de morrer o seu dever era abrir a porta;


o pardal é um poema;

temos tanta pena; tanta pena, tanta pena;

tantos ais, tantos ais, escorrem lancinantes dos beirais;

temos tanta pena, tanta pena, e o pardal é um poema!

31 janeiro, 2011

um olá e um breve excerto de algo a editar talvez em breve

Escorrem harmoniosos os sons da melodia, “O Quel Beau Bouquet de Fleurs” de Gheorghe Zamfir, numa tentativa de derrubar os muros da desarmonia que lhe vai na alma. Lenta e dorida surge a escrita, no ardor dos braços cansados, de tanto remar contra marés. Anda por aí um exacerbado exército a semear antolhos. A cercear horizontes. A anestesiar incautos. Há um sono colectivo a fazer jus à lei-do-menor-esforço. O mais certo é um destes dias haver um mendigar colectivo por uma côdea de respeito. De momento há o recurso ao bordão da resignação e da incúria, já que a sacola está rota. O ser humano, tem uma tendência desmedida, para circundar a orla do abismo, Salvador sabe-o bem, observador atento do exercício de todas as tramas.

22 dezembro, 2010

5º aniversário desta pastagem

são muitas as vezes em que faço chorar as palavras, são muitas mais as vezes que por elas choro. por elas tenho passado tanto tempo a despir a noite.

por mim, pelos amigos e leitores;

as palavras serão o meu alimento e a minha bandeira!

Boas Festas e, se puderem sejam Felizes em 2011.

22 novembro, 2010

António Paiva na Escola Secundária de Barcelos

No âmbito da Feira do Livro promovida pela Secção de Português e pela Equipa da Biblioteca Escolar, o escritor natural de Vila Nova de Poiares, António Paiva, estará presente para um encontro com alunos de ensino secundário. Este decorrerá no dia 06 de Dezembro pelas 10:30 e inaugurará a Feira que estará aberta até ao dia 10 de Dezembro.

17 outubro, 2010

outrora; o mar cheirava a maresia

outrora; Vasco da Gama e seus pares fizeram uso de caravelas para irem em busca de ouro e especiarias. hoje; estes sacanas afundam-nos com submarinos, levam-nos os aneis e os dedos, porque o ouro já há muito que sumiu. outrora; o mar cheirava a maresia, hoje cheira a gatunagem.

13 outubro, 2010

seriamente e a sério

há ladrões que o são seriamente e a sério, tão seriamente e a sério, que nem – a justiça? – ousa colocar em causa a sua honestidade. é neste terno e doce humanismo; que os que são honestos seriamente e a sério, empobrecem seriamente todos os dias e a sério.

27 setembro, 2010

quem lhe desse uma pancadinha carinhosa no toutiço

dói-me o meu próprio embaraço, sempre que apalpo o meu desconforto intuitivo. a maior parte do tempo apetece-me encerrar; antes que esvazie a destempo as minhas prateleiras da lucidez. embora não duvide que ainda estou lúcido e capaz de enfrentar toda e qualquer coisa em forma de gente e, apesar de em tempos um ignóbil habitante de Jericó, se ter deslocado à beira do rio com o firme propósito de me surrar até à medula dos ossos, a verdade é que todo ele se me parece doente de morte. tomba e rola, tomba e rola; desmorona!, apresenta sinais de musgo, fungos e, onde outrora já exibiu penachos, surgem um pouco por todo ele crostas de pura demência. quem lhe desse uma pancadinha carinhosa no toutiço, repito; carinhosa, que não sou fã de violência, nem quero que a vã criatura afanique aparatosamente. desejo-lhe acima de tudo uma comoção com estilo e a gosto. e, que; quando chegar a sua hora, venha o anjinho da carroça nocturna e o leve em bem…

11 setembro, 2010

retalhos

...
a vida mente-me, as pessoas mentem-me. eu recolho as redes tranquilamente e depois minto-lhes também. mimetismo derramado em gestos; riso, choro, recusa, anuência, desejo, negação, ausência, presença, partilha, egoísmo, inveja, reconhecimento, amor, desamor, renúncia e recomeço.
umas vezes sou mais, outras sou muito menos, outras ainda volto-me as costas, outras tantas vejo-me na íntegra. espectro de querência durante a manhã, lugar de esopo ao entardecer, porque os espelhos mentem todas as noites. há em mim uma longanimidade intermitente, por vezes bálsamo, por vezes autoflagelação.
sou capaz de amar entre as fases da lua e nos plenilúnios, não sou capaz de viver sem um amor que acasale com o meu, ainda que eu seja a maior parte do tempo um rio de ausência. nem sempre é fácil transpor o pórtico ogivado e chegar até mim, no entanto rendo-me facilmente à surpresa do gesto, à delícia de me deixar escorrer pelo mel dos lábios, com os olhos marejados de sal.
...

04 setembro, 2010

Recensão Crítica a Livro Imperfeito de António Paiva

Recensão crítica a Livro Imperfeito de António Paiva, publicada na Revista brasileira online TODAS AS MUSAS, Revista de Literatura e das Múltiplas Linguagens da Arte.
www.todasasmusas.org

A imperfeição ganha corpo (de letra) – Tiago Aires

Professor de Língua Portuguesa e Português do 3.º ciclo e Ensino Secundário no Colégio D. Diogo de Sousa – Braga, Mestre em Literatura Românica, Estudos Brasileiros e Africanos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A quem leu e a quem não leu o livro, sugiro que sigam o link
http://www.todasasmusas.org/03Tiago_Aires.pdf acho que vale a pena despender algum tempo na leitura do artigo.

16 agosto, 2010

falta-me o sorriso de gioconda

por não ser dotado do sorriso de gioconda, sento-me na cadeira dos alívios, de olhos atentos no nada, evacuo de modo lento cansado e triste. distraio-me com a nudez mortal dos azulejos esverdeados que revestem as paredes. estou deprimido; remeto-me a estes monólogos escanzelados, pequenas manchas de textos marginais. grassa por aí uma pobreza que não é assumida, e não o é; por ser de matriz cultural. o “botas” bem que nos tramou; quando vociferou que: “o povo português devia ser pobre e humilde como a terra que trabalhava”. a verdade é que o povo português o levou a sério, tão a sério que a profecia do “botas” vigora como lei. maldito sejas ó “botas”!, devias ter caído da cadeira muito antes de nos teres amaldiçoado irremediavelmente!!!
nota:
este texto foi criado antes daquele que o precede

15 agosto, 2010

o disparate estala como ouriço de castanha

cá estou eu de novo na cadeira dos alívios; sofrendo de intoxicação de arrotos provincianos. e, como a paciência não põe ovos, não tenho omeletas de condescendência. [se não me entendem comprem um burro]. e não me estendam olhares lassos, que me pegam essa conjuntivite de idiotice. vá lá; ofereçam-me um sorrisinho subentendido, nos intervalos das bofetadas. raios partam o enguiço testicular de um povo que impede o gozo colossal; é quebranto!; é quebranto!; gritam as mulas e as suas crias. o disparate estala como ouriço de castanha; tornando impossível o contacto com o útero da nação.

10 agosto, 2010

substantivo-te

um gesto de ternura servido numa chávena de chá, um silêncio de açúcar, uma mão dócil compõe melodias manuseando as folhas.

03 agosto, 2010

Sessão de Autógrafos na Feira do Livro da Póvoa de Varzim



No próximo dia 06 de Agosto, pelas 22 horas, estarei presente na Feira do Livro da Póvoa de Varzim, no stand da Papelaria Locus, para uma sessão de autógrafos e contacto com o público, amigos e leitores.

Conto a vossa presença.

Até já!

23 julho, 2010

às vezes escrevo tão perto do que sinto

inclinam-se as palavras na transparência tranquila. o silêncio é um canto branco a repousar sobre o nada. os lábios reúnem-se numa fluidez viva sem intervalos. os corpos são nomes escritos nas linhas do vento. há uma matéria viva e incandescente que ascende em nós e nos torna inseparáveis. suor e luar tudo se confunde quando chove nos poros e na brancura da areia.

14 junho, 2010

apneia humana

esta apneia humana que faz de mim pedra submersa,
às vezes fóssil; crosta calcinada, matriz atroz.
há um óbelo em forma de vespa assinalando as falhas;
uma teia de intempéries a aprisionar-me a boca.
um fluxo sinistro de membranas em elipse;
a estrangular o ventre desta lua de silêncios.


nas casas sonhos arcaicos transcritos prescritos;
silêncios engomados naftalina e bolor salivado.
asfalto sede ruptura caverna muro;
veios traços arestas bocejos e bocas sem beijos.
sexo agudo que sobra da amargura;
há uma luz cega nesta imensa bruma de apneias

04 junho, 2010

coisas dos pés na minha cabeça

os meus pés continuam a andar um atrás do outro; às vezes juntam-se, outras vezes também se separam.

25 maio, 2010

era segredo e agora já não

em breve vou herdar um romance por óbito de um escritor; é uma espécie de infusão de amor e sexo. a musa era uma santa, até que o anjo que lhe habitava os ombros; abriu os olhos, abriu as asas e voou.
foi escrito respeitando a beleza formal da língua, mesmo no mais descarado linguado. por respeito à freirinha dos papos de anjo, não se faz uso do palavrão, nem de gestos obscenos.

[anda por aí tanto sacana e só me restam dois pares de estalos]

18 maio, 2010

Apresentação do Livro Imperfeito na Fnac Leiria


(clique na imagem para ampliar)

30 abril, 2010

mais leve e mais nua

ora flui, ora desliza, ora se eleva, véu feliz sussurrando na transparência da alma, sem temor nos olhos.
entre as linhas do corpo há a baía dos seios, o abrigo das coxas a implorar tremores, a vertigem dos declives, a exaltação.
reparte-se divide-se cada vez mais inteira, entre os gemidos e o fulgor dos silêncios, no prodígio da nudez completa, vibra todo o universo.

[agora dorme serena mais leve e mais nua até à primeira claridade]

05 abril, 2010

Agenda do "Livro Imperfeito"


11 de Abril, às 16:00

Pré-lançamento em Anadia, na Biblioteca Municipal, inserida nas cerimónias de abertura da Feira do Livro.
Apresentação do livro por alunos e professores da Escola Secundária de Anadia e do Colégio Nossa Senhora da Assunção.

11 de Abril às 21:30

Lançamento na Fnac Coimbra, inserido no programa da
Festa do Livro da Fnac
Apresentação do livro por José António e Rafaela Carvalho

14 de Abril, às 16:30

Apresentação em Guimarães, na Fnac Guimarães
Apresentação do livro por Alexandra Cruz Mendes

15 de Abril, às 21:30

Apresentação no Porto, na Fnac Norte Shopping
Apresentação do livro por Sónia Macedo

17 de Abril, às 16:30

Apresentação em Lisboa, na livraria Bulhosa Entrecampos
Apresentação do livro por Ana Correia

24 de Abril, às 17:30

Apresentação no Funchal, na Fnac Madeira
Apresentação do livro por Édison de Almeida


1 de Maio às 21:30

Apresentação em Braga, na Fnac Braga
Apresentação do livro por Tiago Aires
Até já!

21 março, 2010

falta-me a outra margem

falta-me a outra margem; textura de carne rubra. uma febre que me ausculta as têmporas. coxas coroadas pelo baixo ventre em chamas. o sabor. o néctar. os sons que brotam dos seios nas mãos estendidas. as pausas como se fossem gritos mudos. a vertigem dos gemidos penetrantes; como se de uma lua quebrada se tratasse. tenho a memória – falta-me a outra margem.


[por acaso nasci hoje; mas já foi há muito tempo]

[d c; são duas letras e uma alma]

06 março, 2010

magnitude e simplicidade

início do texto o princípio da manhã. na face da folha habita a página, o seio da escrita; vegetação e água viva. entre uma e outra margem; o silêncio é adiado. um barco; uma varanda sobre as águas. os olhos a presença da água; ondulação completa. quilha de gaivota; a rasgar a infinita plenitude. nomes simples; rostos nus. não esperes – habita uma planície.

25 fevereiro, 2010

excerto

o vento uiva lá fora incessantemente dando voz aos sonhos em ruína por todo o universo. qual síntese da minha vida às avessas, nirvana da minha alma. a minha angústia clandestina que não me é permitido confessar publicamente – coisa de frouxos – segundo a lei social vigente. só eles; os frouxos, é que podem ter o descaramento e a fraqueza, de coexistir com a sensibilidade. e podem, por já estarem condenados a pena perpétua. o ceptro da aparência é soberano e impiedoso, brutal e indiferente. não podemos ser em público o que somos no refúgio da alma, porque a ambição odeia contacto da alma com a vida.
ardem-me os olhos, arde-me o corpo desde onde começa até onde termina, nas extremidades o ardor é mais agudo. e quanto mais a minha vida se dilata, mais avultam os defeitos. coisas da fraqueza e desatenção, a tragédia singular da banalidade de uma vida comum. os sonhos intrometem-se na vida e a vida priva-nos deles. só os que têm a coragem de enfrentar o julgamento e cumprir a pena, são capazes de sonhar verdadeiramente, porque acreditam no que sonham, e acreditar no que se sonha, é acreditar que se pode ser feliz.

24 fevereiro, 2010

Tragédia na Madeira

As palavras contam, mas não são suficientes!


DONATIVOS

- Conta nº 1626371377, NIB nº 003800011626371377113 do Banif

- Conta Banif Solidariedade Com as Vítimas da Madeira, NIB: 0038 0040 50070070771 11

- Conta “Solidariedade BBVA – Colabore com a Madeira” NIB: 0019.0001.00200181689.15

- Conta "BES Madeira Solidário", com o NIB: 000700000083428293623

- Conta Santander Totta "Solidariedade com a Madeira": NIB 001800032271378802021

- Solidariedade BBVA "Colabore com a Madeira": NIB 001900010020018168915

- Millennium BCP "Vítimas do Temporal da Madeira": NIB 003300000025125124405

- Barclays "Conta Madeira", 003204700020325226041

18 fevereiro, 2010

no avesso de mim





no avesso de mim narro a angústia, desmonto a insónia. há uma distância surda entre os lábios, uma muralha feita de espera, um silêncio imponderável e agudo que me perfura os tímpanos. olhos marejados de sal sob o véu da ausência. uma fome insuportável de escorrer pelos teus contornos e gritar até ficar rouco. há uma ferida aberta que me consome, dorme, dorme, dorme. já fui abelha em cópula colhendo mel do teu estame. e tu auréola resplandecente em chamas.

19 janeiro, 2010

tão breve quanto breve


a água cai de degrau em degrau como onda que nasce da onda.

11 janeiro, 2010

Curso Escrita Criativa


(clique nas imagens para ampliar)

Darei início ao Curso de Escrita Criativa, no próximo dia 25 de Janeiro, às 18:30, no IFACC – Escola Profissional Cristóvão Colombo, Funchal. O curso de terá a duração de 20 horas, e termina a 29 de Janeiro às 22:30.

Horário de funcionamento de segunda-feira a sexta-feira, das 18:30 às 22:30.

As inscrições estão limitadas a um máximo de 12 participantes.

Para mais informações e inscrição:
Escola Profissional Cristóvão Colombo - Avenida do Infante, 6 - Funchal.
Telefone 291201770
info@epcc.pt
marleneandrade@epcc.pt
Marlene Andrade




01 janeiro, 2010

Bem-vindos a 2010






"Habitar a terra é ser o olhar e a luz/Um mais aéreo e íntimo movimento/Amplitude calma e liberdade"
Façam-me o favor de serem felizes e de fazerem alguém feliz!
E, prá frente que atrás vem gente!
Um abraço enorme para todos vós, deste ser que é o exemplo perfeito da imperfeição.






As fotografias são todas do gajo do costume

22 dezembro, 2009

4º aniversário da pastagem





quatro anos por aqui a semear o pasto, uns com mais sementeira do que outros, ainda assim semeando.
durante este tempo nasceram 5 livros individuais e a participação num colectivo, visitei dezenas de escolas um pouco por todo o país e na ilha onde vivo.
o ano que se aproxima terá um início repleto de novos projectos; um curso de escrita criativa da minha autoria, um projecto de escrita numa instituição que orienta jovens carenciados e um novo livro em prosa, isto para além de diversas actividades que pretendo levar a cabo durante o ano; tenha eu arte engenho e perseverança para tal.
a todos quantos me têm apoiado e incentivado quero manifestar-lhes a minha profunda gratidão e carinho.

um abraço e Boas Festas.

28 novembro, 2009

usufruto

(fotografia antónio paiva)

usufruto dos meus olhos. porosidade da minha mente. ritual das circunstâncias. és tu sol alaranjado quando te deitas e beijas as sombras nas arcadas dos meus lábios.

23 novembro, 2009

destinos nossos

(fotografia antónio paiva)

nem todos os destinos são humanos, e muitos estão para além das ameias do que pressentimos. nem sempre os mastros se vestem de lonas. nem todas as amarras são uma prisão, a maior parte do tempo são elas que nos suportam rumo às conquistas. e sim, todos os destinos são possíveis, como se; se tratasse de algo que sempre nos pertenceu. que se levantem pois as âncoras - que o destino está-nos no sangue.

15 novembro, 2009

Sugestão para Oferta de Natal

(clicar nas imagens para ampliar)

Tendo em conta a época Natalícia que se avizinha, as Caves Castelar com sede em Anadia, decidiram colocar no mercado, um Pack constituído por duas garrafas de vinho tinto Pedaços de Vida e Fantasia, colheita do ano 2000, e um exemplar do livro cujo título deu origem à marca do vinho, e cuja imagem de capa foi adoptada para o rótulo da garrafa. O referido Pack está limitado a 200 exemplares.

Para efectuar encomendas visite o site www.vinicolacastelar.com/, onde estão disponíveis os diversos contactos e, aproveite a oportunidade para conhecer os produtos de excelente qualidade, das Caves Castelar.

22 outubro, 2009

um lábio de utopia






o lábio adormecendo o silêncio
sem ardor nem onda nem espuma
dilata-se o sossego e tudo é oceano

dormiu de janelas abertas à palavra
um sono de transparência breve
ao acordar disseram-lhe;
que o deserto se vestira de verde e azul



10 outubro, 2009

Como adquirir o livro 70 poemas por um sorriso

Para adquirir o livro 70 poemas por um sorriso, deve contactar a APPACDM de Setúbal, através do e-mail appacdmset@sapo.pt

O preço do livro são 5€ mais despesas de envio.

A totalidade da receita reverte a favor da APPACDM de Setúbal

Uma excelente sugestão para oferta de Natal.

14 setembro, 2009

10 setembro, 2009

70 poemas por um sorriso - O rosto do livro


De acordo com o prometido, dou a conhecer o rosto do livro "70 poemas por um sorriso. A capa tem por base uma pintura a óleo sobre tela, da minha estimada amiga Helena Paz. De salientar que a pintura foi criada pela artista propositadamente para a capa deste livro.

07 setembro, 2009

70 poemas por um sorriso

Fixem este título. São setenta poemas, com a firme vontade de proporcionar um sorriso, a todos quantos uma causa nobre abriga e acarinha, neste caso a APPACDM de Setúbal. Lá mais para diante darei a conhecer o rosto deste trabalho.

26 agosto, 2009

anseio

anseio todas as palavras simples,
com a mesma ânsia que encaro o meu rosto.

anseio na escrita de todos os dias,
a memória da memória permeável às diferenças.

todos têm as suas próprias leis,
pedem-me que as entenda,
continuando indiferentes à minha ânsia.

habito sob esta pele,
matéria bárbara e adversa,
na ânsia de não favorecer a desistência.

depois acusam-me da ausência,
como se tudo fosse apenas e só um poema ambíguo.

anseio sobreviver,
a esta fadiga que me impõem, torrente de egoísmo.

a todos devo, mesmo aos desconhecidos,
anseio tanto pagar-lhes para que me deixem em paz.

18 agosto, 2009

pensamento pró fundo

o cão que morde o cão como se fosse o dono.

17 agosto, 2009

por nojo

anti-isto, anti-aquilo, anti-tudo e anti-nada. o rosário escabroso das classes socioprofissionais-político-sociais de banda-larga. alternativa mesmo alternativa nunca houve, o que há é a alternância do costume. e como de alternância se alimenta a clientela. já estão agendadas as paralisações. o que me irrita é que a factura depois é a dividir por todos. e com a franqueza que devo a mim próprio - já me mete nojo!

15 agosto, 2009

!

antes dar pérolas a porcos, que palavras à iliteracia congénita

13 agosto, 2009

avó Maria


´

preciso de voltar a essas casas
pedras e telhados das minhas origens.

avó Maria,
quero de novo os vinte escudos
embrulhados num sorriso na palma da tua mão
no alpendre da tua casa aos domingos à tarde.

que saudade da lisura da tua bondade
poema vivo da minha juventude
o pão fumegante saído do forno
recheado de petingas temperadas de azeite
que as tuas mãos calejadas me ofereciam.

outrora crescia-me a água na boca feliz
hoje as memórias humedecem-me o olhar.

aqueles degraus rasos de pedra
onde saboreava o delicioso manjar
são agora o tempo a latir o silêncio
as intempéries levaram o teu rosto
a nitidez da perda é a matriz do meu longe.

06 agosto, 2009

dedico-te estas palavras





dedico-te estas palavras
com mãos quentes calejadas
dedico-tas por não m’as teres pedido
germinaram dos meus olhos sem teias
são sinceras, rainhas e plebeias

são a travessia branca da minha alma
a metamorfose de mim na palavra toda
um voo oblíquo de matéria ardente
um silêncio habitável por toda a gente
respira este lugar calmo transparente
na invulnerável superfície da página
vive medita e lê como quem sente

30 julho, 2009

Ode ao Arquipélago da Madeira e Porto Santo [abraçando as Desertas] (cont.)

II



gosto de me pôr à janela desta ilha que habito
a olhar o grande oceano em azul majestoso
a minha dimensão é do tamanho do que sinto
sou tantas vezes livre quantas vezes me liberto
só eu sei o que o meu pobre corpo vibra
quando a alma dele se evade e poisa nos canteiros
há flores de todas as cores perfumes sem dores
uma ilha nunca será pequena como a dizem
pois a partir dela se pode ver a dimensão do mundo



por aqui sei que posso venerar o crepúsculo
combater o tédio compreender sem destruir
sinto que destruir é esquecer de amar
esta ilha ensinou-me a amar desde que me acolheu
alimentou-me dos seus seios esplendorosos
resgatou-me ao cansaço ofereceu-me o seu generoso regaço
toda esta ilha é um majestoso corpo de mulher
onde se adivinha o amor estendido nos braços dos homens
abençoado pela mão despida do oceano



imagino Gonçalves Zarco a desembarcar
para além das naus traria certamente o sol nos lábios
nos olhos o êxtase que o belo ao homem sugere
no rosto o espanto pela sensualidade do verde e azul
estremecendo de prazer no rasgar do véu feito de bruma
entre mar e céu festejos de pupilas dilatadas no calor da terra
visão inesquecível e comovente para pintores e poetas
tocantes sinfonias de vida e alegria nascem nesta pauta feita ilha
a mão do homem que tudo muda mas a essência e o amor permanecem



antónio paiva
(por favor respeite os direitos de autor)

28 julho, 2009

Ode ao Arquipélago da Madeira e Porto Santo [abraçando as Desertas]

I



perdoem-me o atrevimento de querer contar
cantar e encantar uma ilha um arquipélago
perdoem-me porque por amor se cometem loucuras
é indelével esta minha paixão pelos recantos e encantos
e tento por palavras esculpir o que sinto
às vezes deliciado outras incrédulo num sonho de escrever



tudo o que eu possa escrever não passará de um rascunho
ainda que sentido e fiel ao amor por tanta e indizível beleza
tanta História e labor trespassa a minha pobre mente
um efeito prolongado e decisivo sobre tudo o que há para fazer
viver sentir e preservar a dar forma ao que somos e às nossas vidas


só os mais distraídos não darão conta
do sangue dos nossos antepassados a correr dentro de nós
misturado com o nosso a irrigar cada ser único e irrepetível
a tudo isto se junta o que é grande e magnífico como o oceano
um véu azul e transparente onde se vê a alegria
até à raiz mais nobre e profunda dos rochedos vigilantes



erguem-se imponentes e majestosos os picos
beijando intencionalmente as nuvens fermentando as brumas
bem-aventurado arquipélago bafejado pela harmoniosa anarquia
de paisagens tão diversas e antagónicas na profusão de cores
rochedos cascatas ribeiros levadas abruptos desfiladeiros
manta de cores nas copas dos arvoredos terra húmida e fértil
flores de cores intensas e aromas densos a despertar tórridas paixões


tão tórridas quanto a aridez selvagem das Desertas
por toda a parte sons misteriosos da azáfama da Natureza
o canto das aves a graciosidade escultural do lobo-marinho
perante tão intensas sensações a mente rejubila de contentamento
e o corpo pede repouso no dourado e quente areal de Vila Baleira

antónio paiva
(por favor respeite os direitos de autor)

08 julho, 2009

breve ensaio à inércia





um e outro a ilusão de cada um de nós,
na bruma perturbada pelos gnomos do silêncio.
indescritível dor de gozar a calma do exílio,
na tela húmida de um tédio irreal e vago.

respiramos o ar intensamente neutro e mole,
como o cerimonial da cauda de um gato dormindo ao sol.
assim nos imaginamos felizes rindo,
num tocar de pés nus a plausível necessidade dos vivos.

um lábio toca outro lábio habitando juntos,
a mesma boca o mesmo rosto a mesma inércia alada.
um cansaço é a sombra de outro cansaço,
uma súplica uma exigência ao direito de não fazer nada.

30 junho, 2009

ouves-me lucy?





somos tão trágicos quanto a tragédia que somos capazes de conceber, bebemos em silêncio um chá de tédio. logo hoje, precisamente hoje, acabaram-se as saquetas do teu adorado chá de menta. – vivemos sós!, sempre que os meninos estão a dormir, não é lucy? fazemos uso deste tédio antigo por incapacidade de o renovarmos, ou partirmos à descoberta de um novo. concordamos na estagnação porque tudo acontece na mesma. a filha dos nossos vizinhos acabou o curso superior, e nós nem precisámos de nos mexer. aconteceu.
que silêncio tão grave, a ferir-me os tímpanos só o eco dos teus pensamentos; na próxima semana tens de ir ao salão da bety e talvez faças umas nuances. serão ténues e discretas como um remédio inútil. – notas alguma diferença em mim? – o que foi que te aconteceu lucy? o teu olhar ficou sombrio e contraíste as maçãs do rosto, notei algum esgar de ódio nos teus olhos; repetiste – notas alguma diferença em mim? – lucy passa-se alguma coisa de grave contigo? – começo a ficar preocupado; – diz-me lucy? – és mesmo estúpido, não vês que fui à bety? ia responder-te mas só encontrei a porta a bater-me no nariz.
eu nem sequer conheço a bety. disse a mim mesmo. conheço é o cajó, o tipo que me apara o cabelo e me põe a par das merdas que se passam no futebol, e nos intervalos me fala das gajas boas que estão nas capas das revistas, que me dá a ler enquanto espero pela minha vez, depois pago a conta e saio, só volto daí a dois meses. sem nuances. já me basta a falta de cabelo que se agrava a cada dia. – lucy, diz-me; – alguma vez te perguntei se notavas alguma diferença em mim? não, porque sei que odeias o meu pentear, tanto quanto odeias as cores que escolho nas cuecas que uso. nunca me perdoaste o não te deixar escolher-me as cuecas.
ao longo destes anos todos sempre que te contrario em alguma coisa, há mais uma coisa que passas a odiar em mim. não suportas quando leio e ouço música clássica. sou um parvo com mania de erudito, assim me baptizas enquanto me vomitas mentalmente, sentada no sofá a folhear a elle, com o canal fashion ligado. é neste sono de dizer que anulamos a febre de ser, mastigando azedas que colhemos no vaso onde deitamos sementes e germina a tolerância anémica. é lucy, assim nos vamos suicidando aos bocadinhos; porque, supostamente para nós, nós são os outros, se não são, deviam pensar e sentir como nós, sendo nós.
ouvi-te pensar que este fim-de-semana levamos os meninos a casa dos teus pais. sim lucy eu ouço-te pensar. e levamos porque a semana passada levámos os meninos a casa dos meus. é nesta democracia paliativa que suportamos as nossas vidas e nos suportarmos. é a realidade de cada um de nós que nos impede de existir. tu não suportas os meus pais e eu não suporto os teus. os teus não me suportam e os meus não te suportam. espera lucy, estou a ser impreciso; o meu pai gosta muito da mãe dos seus netos, e acho que tu também gostas dele. agora sim, agora é que está bem, foi reposta a verdade inócua.
lucy agora experimenta ver se consegues ouvir o meu pensamento; é a ironia que nos impõe tarefas, e, no privilégio que nos é concedido por uma horrorosa reciprocidade. – sim lucy!, este fim-de-semana levaremos os meninos a casa dos teus pais. de outro modo colocaríamos em causa a monotonia das nossas vidas inconsistentes. e o tédio é o nosso sentimento mais bem definido. porque nos faz sentir culpados e a culpa nos faz sentir pena de nós. habitamos uma espécie de depressão, cujos ganhos secundários nos são preciosos. uma atmosfera de gozo trágico na excitação que o sofrimento nos proporciona.
...

26 junho, 2009

bloguice fast food






  • é com ou sem cebola?

bom fim-de-semana e passar bem!

22 junho, 2009

Índole





Ou em jeito de prefácio


Nesta vida povoada de escolhos, a sorte, é na maior parte do tempo, uma criada aleijadinha que nos serve o chá, saltitando ao jeito do infortúnio. O carácter um criado maltratado e ignorado, a que não se dá o devido valor. A honestidade um empecilho à vaidade. Caminha-se na rua rodeado de tudo sem nada ver, tal é a cegueira da fama e ambição. A verdade é um incómodo.
Há algo que não me canso de repetir até para mim mesmo; os sonhos são de construir, os sonhos são de construir. Ser crente em algo, é expor a dúvida, assumir a imperfeição, a necessidade de valorar a existência. Nenhuma fé vale mais do que outra, nenhum tipo de fé deve ser imposto a outrem, se isso acontecer deixa de ser fé, assumindo o rosto de fanatismo. Não acreditar em nada é habitar o vazio.
A liberdade não é um direito, é um dever. Sábio é aquele que conhece e estima o valor dos valores. São raros os que conseguem viver a plenitude da vida, os que o conseguem entregam-se-lhe de corpo e alma, por lhe terem um amor inteiro. Mais vale uma pausa serena do que agir inutilmente. Por muito que se porfie, o acaso não vende a sorte. Nem a verdade é um lago onde se banhem os ignóbeis a seu bel-prazer.
Uma virtude não é, nem pode ser, um lapso, um eco vago, tão-pouco uma subjectividade. E, se alma de um ser humano se pudesse libertar dele, revelaria por certo toda a verdade, que a mentira do corpo aprisiona. Quem dera que num qualquer Abril ou até Dezembro, numa revolta despida de intolerância, as almas se libertassem dos homens. Expondo as vergonhas, para que os homens sintam nas dentaduras, todas as dores que lhes causam.
E quanto mais medito em tudo isto, maior é o desconsolo que me invade. O cansaço das caras do costume. A pobre substância dos factos, o bolor dos actos vestidos de hábitos antigos, repetidamente repetidos. E quanto mais abro os olhos, o que mais me é dado a ver são antolhos. Um enredo orgânico de fingimento agoniante. Há no entanto, ar, terra e mar, há o amor, onde a minha consciência me dita o dever de repousar.

11 junho, 2009

ipsis verbis





não tarda sai-me a primavera pela janela e entra-me o verão pela porta. as vizinhas já andam a pendurar biquínis e tanguinhas no estendal; a coisa promete. claro que com a subida da temperatura há mais poeiras no ar, que, não se fazem rogadas e me entram em casa por todos o lados, janelas portas frestas e frinchas, não há vidro duplo, caixa de ar ou calafetagens que resistam.
sou por natureza um tipo meio distraído e, quando vou a dar conta, tenho cá em casa; o sócrates, a ferreira leite, o vital, o rangel, o louçã, o portas um e o portas dois, o melo, o jerónimo e a ilda e mais uns quantos grãos de poeira, que na grande maioria não sei identificar, é cá uma poeirada, um autêntico buraco negro, que me torna os dias absolutamente irrespiráveis.
vejam lá bem, que até o aníbal, no passado dia 10 de Junho, me entrou sorrateiramente pela janela logo de manhã, e só saiu quando eu me fui deitar, já era madrugada do dia 11.
como era dia da pátria a selecção nacional ofereceu-me um empate, cedido por especial favor, por uma humilde congénere tão a leste, como o empenho dos bravinhos lusos. ai que saudade do mata mata. o tipo não era luso, mas falava a língua de camões e, ganhava jogos. isto para além de dar uns tapa em quem se atrevesse a tocar nos minino.
ai que saudade do mata mata, a malta bem que o podia contratar para dar uns tapa, na poeira política, que me entra, que nos entra, casa adentro, e nos toca sobretudo onde nos dói mais.
o caló, que é taxista, e percebe muito de futebol e de política, é que diz ter um bom remédio para tratar desses gajos todos, só que, eu como sou um moço bem educado, não me atrevo a reproduzir aqui a receita.

não tarda sai-me a primavera pela janela e entra-me o verão pela porta. as vizinhas já andam a pendurar biquínis e tanguinhas no estendal; a coisa promete.

01 junho, 2009

tu criança




tu criança
que do amor
és o fruto perfeito

sim tu criança

porque hão-de
almas satãs
roubar-te o que é teu por direito

sim tu criança

porque hão-de
infernos humanos
destroçar o teu arco-íris

sim tu criança

porque hão-de
canalhas malfeitores
apoderar-se do teu sonho inocente


in “Janela do Pensamento”
antónio paiva